A reciclagem de base popular ampliou sua presença econômica e ambiental no Brasil nos últimos anos. Em 2024, 3.097 organizações de catadoras e catadores, entre cooperativas e associações, movimentaram R$2,03 bilhões com a comercialização de resíduos e destinaram pouco mais de 2 milhões de toneladas de materiais à reciclagem. O universo mapeado reúne cerca de 72,4 mil trabalhadores em todas as regiões do país.
Os dados fazem parte do Anuário da Reciclagem 2025, produzido pelo Instituto Caminhos Sustentáveis e patrocinado pelo Sebrae e pelo Sistema OCB. Entre 2019 e 2024, o número de organizações identificadas cresceu 69%, enquanto o volume recuperado avançou 89%. No mesmo período, o faturamento passou de R$664,8 milhões para R$2,03 bilhões, alta real acumulada de 273%.
A expansão, porém, ainda convive com dificuldades de remuneração e estrutura. A renda média mensal dos catadores chegou a R$1.359,57 em 2024 e acumulou crescimento real de 20% desde 2019. O próprio Anuário aponta infraestrutura, acesso a equipamentos, formalização de contratos e remuneração pelo serviço ambiental entre os desafios para o fortalecimento das organizações.
A dimensão ambiental ajuda a mostrar o valor que passa por essa cadeia. As cerca de 2 milhões de toneladas recuperadas em 2024 representaram uma redução potencial de 1,81 milhão de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂e), além de diminuir a necessidade de extração de matérias-primas para a fabricação de novos produtos.
Estrutura limita avanço
Transformar esse volume em organizações mais eficientes ainda depende de condições bastante desiguais. Um diagnóstico realizado pelo Pró-Catadores Santa Catarina avaliou aspectos legais, administrativos, comerciais, produtivos, de infraestrutura, coleta seletiva e relacionamento de 41 cooperativas e associações. A maturidade média encontrada foi de 40%.
A deficiência de equipamentos aparece entre os problemas mais evidentes. Esteiras, prensas, empilhadeiras e outros recursos permitem aumentar produtividade e agregar capacidade de processamento, mas estão distantes da realidade de parte das organizações. A estrutura física é apenas uma parte da equação. Organização financeira, planejamento de investimentos, emissão de notas fiscais e capacidade de participar de contratos também influenciam o acesso das cooperativas a mercados mais amplos.

Em Florianópolis, a Cooperativa Renascer 4R mostra como essa mudança pode ocorrer dentro da própria cooperativa. A organização passou a aperfeiçoar o controle das contas e a trabalhar com o ponto de equilíbrio financeiro, indicador utilizado para identificar quanto a operação precisa gerar para cobrir seus custos. O processo também levou a presidente Luciana do Nascimento a reorganizar sua atuação na entidade. “O pessoal do Sebrae vem me orientando a focar mais na parte administrativa, pois ainda fico muito ocupada coordenando o trabalho do pessoal. Estou fazendo essa transição para podermos avançar mais”, explica.
A cooperativa também abriu outras fontes de atuação além da triagem e venda convencional dos recicláveis. A Renascer 4R realiza gestão de resíduos e educação ambiental em eventos e presta serviço ao Floripa Shopping, onde separa materiais orgânicos destinados à compostagem e recicláveis para comercialização.
Para Luciana, a presença em novos espaços também modificou a forma como a organização passou a ser percebida. “Temos evoluído muito. Nos eventos mais antigos, nos colocavam nos fundos. Agora, nos colocam na entrada. É uma demonstração de que estamos quebrando barreiras e ganhando projeção”, afirma.
Material sem mercado
A capacidade de gestão, contudo, não resolve sozinha outro problema da cadeia: nem todo material que chega às cooperativas encontra comprador. A questão aparece com força no plástico, justamente um dos resíduos mais relevantes economicamente para as organizações. Em 2024, sua comercialização movimentou cerca de R$1,15 bilhão, segundo o Anuário.
Uma pesquisa do Instituto de Direito Coletivo em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), reunida entre os materiais analisados, acompanhou 26 cooperativas e identificou que o plástico corresponde a aproximadamente 30% dos resíduos recebidos. Entre os materiais que acabam descartados por não serem aproveitados, entretanto, a participação chega a 45%.
Parte dessa diferença está relacionada à viabilidade econômica. Há plásticos que podem ser reciclados tecnicamente, mas cujo baixo valor, distância até a indústria compradora ou necessidade de grande volume tornam o transporte e o processamento pouco atrativos. O resultado é que a cooperativa executa a triagem mesmo quando aquele trabalho não se converte em comercialização.

Tatiana Bastos, Presidente do instituto, estima que essa atividade sem retorno representa cerca de 15 horas mensais de trabalho para cada catador analisado. “Ele passa dos 22 dias de trabalho, dois jogados fora em decorrência do plástico. São muitas horas separando e, pior ainda, separando aquilo que não vai ser vendido”, afirma. O estudo também calculou perdas mensais entre R$1.179,03 e R$3.771,72 das 17 organizações avaliadas financeiramente.
O problema desloca parte da discussão para quem coloca os produtos no mercado. A Política Nacional de Resíduos Sólidos estabelece a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos e prevê sistemas de logística reversa para diferentes cadeias. Para Tatiana, ampliar a cobrança sobre a destinação das embalagens é essencial para evitar que o custo de materiais sem mercado fique concentrado na etapa de triagem. “Se não tem reciclabilidade, não pode colocar esse plástico. Precisa ter a responsabilidade de empresas que colocam no mercado e também fiscalização”, acrescenta.
Gestão para novos caminhos
Enquanto parte das organizações ainda enfrenta limitações de equipamentos e acesso ao mercado, experiências mais estruturadas mostram como investimentos em gestão podem ampliar a produtividade e a prestação de serviços. A Cooperativa Rainha da Reciclagem, em São Paulo, opera com esteiras, prensas, balanças e espaços organizados para armazenamento dos materiais, estrutura analisada pelo Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat) durante os trabalhos de atualização do Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos da capital paulista.
A organização mantém duas unidades. Na capital paulista, cerca de 100 cooperados atuam em uma operação que processa aproximadamente 350 toneladas mensais. Em São Vicente, outros 54 cooperados participam de uma unidade que mantém acordo com o município para execução da coleta seletiva e processa cerca de 200 toneladas por mês. A cooperativa também ampliou sua atuação para soluções destinadas a empresas e projetos de incentivo ao descarte correto de resíduos.

A experiência é utilizada pela ONU-Habitat como referência para discutir a relação entre inclusão produtiva e capacidade operacional. Luiz Gustavo Vilela, Coordenador de programas do organismo e responsável pela frente ligada ao plano de resíduos de São Paulo, avalia que esses dois aspectos não precisam caminhar separados. “O trabalho social na cooperativa e sua estrutura operacional demonstram como inclusão produtiva e eficiência caminham juntas, promovendo geração de renda, organização dos processos e melhores condições de trabalho”, afirma.
O avanço da estrutura organizacional também ocorre em uma atividade majoritariamente feminina. Mulheres representam 55,5% dos trabalhadores registrados nas cooperativas e associações analisadas pelo Anuário, embora a publicação indique que essa presença ainda não se reproduz na mesma proporção em funções formais de liderança.
Os resultados dos últimos anos mostram, portanto, uma cadeia que ganhou escala e ampliou sua contribuição para a gestão de resíduos no país, mas cujo crescimento ainda depende de fatores que vão além da quantidade coletada. Equipamentos, gestão, acesso direto ao mercado, contratos, logística reversa e remuneração pelo serviço ambiental definem quanto do valor econômico e ambiental produzido pela reciclagem consegue permanecer nas organizações e chegar aos trabalhadores.
O desafio passa a ser menos demonstrar a importância das cooperativas e associações para a reciclagem brasileira e mais criar condições para que essa importância seja refletida em operações financeiramente sustentáveis. Com 2 milhões de toneladas recuperadas e R$2,03 bilhões movimentados em um único ano, a escala já existe. Transformá-la em estrutura e renda permanece como uma das próximas etapas para a consolidação do setor.
Por João Victor – Redação MundoCoop












