O agronegócio brasileiro vive um cenário de forte contraste. Enquanto a produção agrícola mantém perspectiva de safra recorde, a pressão financeira sobre produtores rurais e empresas da cadeia produtiva continua elevada. No primeiro trimestre de 2026, foram registrados 474 pedidos de recuperação judicial no setor, alta de 21,9% em relação aos 389 casos do mesmo período de 2025, segundo a Serasa Experian.
O resultado ocorre após 2025 registrar o maior número de pedidos desde o início da série histórica da Serasa Experian. Foram 1.990 solicitações no ano, crescimento de 56,4% em relação a 2024, quando houve 1.272 pedidos.
O avanço revela um dos principais paradoxos do campo: produção elevada não significa necessariamente saúde financeira. Custos de produção, juros altos, crédito mais seletivo, volatilidade das commodities e endividamento acumulado vêm comprimindo as margens, mesmo entre produtores com boa produtividade.
Para Denis Barroso, sócio da Barroso Advogados Associados e especialista em recuperação empresarial, a pressão atual está mais relacionada à estrutura financeira dos negócios do que à capacidade produtiva.
“O produtor não está necessariamente produzindo menos. Em muitos casos, a produtividade continua elevada. O problema é que ele recebe menos por sua produção enquanto os custos para plantar, financiar e operar cresceram significativamente. Quando se somam insumos caros, crédito restrito, juros elevados e preços voláteis das commodities, a margem financeira acaba sendo comprimida”, afirma Denis.
Crédito mais caro aumenta a pressão
A elevação do custo do dinheiro e a maior seletividade das instituições financeiras mudaram a dinâmica de financiamento do setor. Produtores que dependem de crédito para capital de giro, investimentos e custeio de novas safras passaram a enfrentar condições mais restritivas.
“Hoje o custo do dinheiro se tornou um dos maiores desafios para o agronegócio. Muitos produtores renegociaram dívidas nos últimos anos acreditando em um cenário diferente daquele que acabou se consolidando. Com crédito mais caro e mais seletivo, muitos passaram a enfrentar dificuldades para manter o capital de giro e financiar novas safras”, explica Denis. O impacto também alcança fornecedores, cooperativas, tradings, transportadoras e demais empresas ligadas à cadeia produtiva.
Recuperação judicial exige ação antecipada
Apesar do crescimento dos pedidos, a recuperação judicial não deve ser interpretada como consequência automática de uma crise estrutural do agronegócio. Em muitos casos, negócios com capacidade operacional e ativos enfrentam principalmente um desequilíbrio entre geração de caixa e compromissos financeiros.
Para Denis, a recuperação judicial pode ser importante para preservar empresas viáveis, mas deve ser utilizada como parte de uma estratégia de reestruturação. “A recuperação judicial é um importante instrumento de reorganização empresarial, mas não pode ser vista como estratégia inicial. Quando utilizada sem planejamento ou no momento inadequado, ela tende apenas a prolongar dificuldades que poderiam ter sido enfrentadas anteriormente”, afirma.
O especialista defende que a identificação antecipada dos problemas amplia as possibilidades de negociação e reorganização. “O erro mais frequente é esperar que a crise se torne praticamente insolúvel. Em diversos casos ainda existem alternativas, como renegociação estruturada das dívidas, revisão da operação, venda de ativos não estratégicos e busca por novos investidores. Quanto mais cedo essas medidas forem avaliadas, maiores são as chances de preservar a atividade empresarial”, destaca.
Governança ganha peso no novo agronegócio
Para Benito Pedro Vieira Santos, CEO do Grupo Avante Assessoria e especialista em Governança Corporativa e Reestruturação Empresarial, o cenário mostra que a gestão financeira precisa acompanhar o nível de eficiência já alcançado pelo produtor no campo.
“O agronegócio brasileiro aprendeu a produzir com eficiência, mas agora precisa administrar o crescimento com a mesma excelência. Produção elevada não é suficiente quando a estrutura de capital está pressionada. É preciso acompanhar o caixa, projetar cenários, controlar a alavancagem e antecipar os riscos financeiros”, afirma Benito.
Segundo ele, a mudança também está na relação com os agentes financeiros, que passaram a avaliar, além de patrimônio e garantias, aspectos como geração de caixa, qualidade das informações e governança. “O crédito deixou de olhar apenas para o patrimônio. Hoje, capacidade de geração de caixa, qualidade das informações, governança e previsibilidade financeira são cada vez mais importantes. O verdadeiro ativo de uma empresa passou a ser também a qualidade da sua gestão”, explica.
Nesse contexto, a governança deixa de ser apenas uma estrutura de controle e passa a ter papel estratégico na prevenção de crises. “Governança não significa burocracia. Significa transformar informação em decisão. Empresas que acompanham indicadores, projetam fluxo de caixa, simulam cenários, monitoram a alavancagem e negociam antecipadamente com credores conseguem atravessar períodos adversos com muito mais eficiência”, afirma Benito.
Desafio permanece
Mesmo com perspectivas positivas para a produção agrícola, o ambiente financeiro continuará exigindo cautela ao longo do ano. Juros, preços das commodities, custos dos insumos e disponibilidade de crédito serão determinantes para a recuperação das margens do setor.
Para os especialistas, o próximo ciclo do agronegócio exigirá uma combinação maior entre produtividade e gestão financeira. Mais do que produzir, será necessário preservar liquidez, administrar o endividamento e antecipar riscos.
“O agronegócio brasileiro continua extremamente competitivo e possui fundamentos sólidos. O desafio, agora, é fortalecer também a estrutura financeira das empresas. Quem conseguir antecipar riscos, reorganizar sua estrutura de capital e manter disciplina na gestão estará mais preparado para atravessar esse período de maior pressão”, conclui Denis Barroso.
Benito reforça que essa mudança representa uma nova etapa para o setor. “O próximo ciclo de crescimento do agronegócio será marcado não apenas pela capacidade de produzir, mas pela capacidade de transformar produtividade em geração de caixa. Os negócios mais preparados serão aqueles que conseguirem combinar produtividade, disciplina financeira, governança e capacidade de adaptação”, conclui.
Fonte: Grupo Alliance












