Chuvas atrasam colheita de café e podem afetar qualidade dos grãos

Minas Gerais, o maior produtor do país, teve precipitações em excesso em junho; no Estado, 30% da área foi colhida, abaixo da média de 40% para o período

A colheita de café está atrasada nas principais regiões produtoras do país, reflexo de chuvas acima da média no fim de junho. Em Minas Gerais, que responde por metade da produção brasileira do grão, a colheita está em 30%, enquanto a média histórica para o período é de 40%, segundo a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG).

As chuvas de junho atrasaram a colheita no Cerrado e no sul de Minas e podem comprometer a qualidade dos grãos. A perspectiva de novas chuvas nos dias 13 e 14, já como efeito do fenômeno climático El Niño, também pode afetar a produtividade da próxima safra.

Sérgio Regina, coordenador técnico da Emater-MG, diz que, com as chuvas no inverno, os cafezais começam a florescer antes do tempo. E essas flores são derrubadas durante a colheita, afetando a produção de frutos na safra seguinte. Para a safra atual, a Emater-MG projeta produção de 31,8 milhões de sacas em Minas Gerais, acima das 25,7 milhões do ciclo passado. A previsão anterior era de 32,4 milhões de sacas nesta temporada.

Regina afirma que o volume de café beneficiado ainda é pequeno, sendo difícil mensurar a perda de qualidade. “Quem pôde, interrompeu a colheita do café das árvores após as chuvas, para levantar o café do chão para secar. É caro, trabalhoso e atrasa a colheita”, observa.

No Brasil, segundo o último levantamento da Safras&Mercado, a colheita atingiu 52% da safra 2026/27 até o dia 1 de julho — tinha alcançado 60% um ano antes. Conforme Gil Barabach, da Safras & Mercado, houve avanço de 8 pontos percentuais em relação à semana anterior, mas esse ritmo ainda não se refletiu na oferta do grão, devido ao tempo de secagem e beneficiamento do café.

Produtores do Sul de Minas Gerais e do Cerrado Mineiro relatam aumento de queda de grãos em decorrência das chuvas e perda de qualidade, o que deve se refletir na rentabilidade.

A Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé (Cooxupé), maior cooperativa de café do mundo, informou que a colheita atingiu 24,9% da área dos cooperados até 28 de junho. No mesmo período de 2025, o índice era de 31,4%. A colheita chegou a 30% nas Matas de Minas, 29,8% no sul do Estado, 26,5% em São Paulo, e 16,2% no Cerrado Mineiro.

A segunda maior exportadora de café do Brasil, Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado (Expocacer), informou que a colheita atingiu 32% das 2,859 milhões de sacas estimadas para a safra até 3 de julho. Houve avanço de 5 pontos percentuais em relação à semana anterior. Mas, no mesmo intervalo de 2025, a colheita atingia 42% do total.

Gustavo Vieira de Carvalho mantém 550 hectares de cafezais em Capelinha, no norte de Minas Gerais, e 150 hectares em Areado, no sul do Estado. Ele diz que colheu 50% da área em Capelinha e 80% em Areado. Vieira, que também tem operação de beneficiamento e armazenagem de café de terceiros, afirma que na região de Areado a colheita dos produtores está em 30%. Com isso, o beneficiamento está com atraso de dez dias.

“Por causa das chuvas caiu muito café no chão e há grãos brotando. Vai haver muito pouco café fino para exportação e muito café de qualidade intermediária. Por causa da umidade, há muito café riado e rio”, diz ele. Segundo a Tabela Oficial Brasileira de Classificação, o café é dividido em ordem crescente de qualidade nas categorias rio zona, rio, riado, bebida dura, mole e estritamente mole. Enquanto uma saca de café bebida dura é vendida em torno de R$ 1.650, o café rio é negociado a R$ 1.200.

Na região do Cerrado Mineiro, a colheita também sofre atrasos devido a chuvas muito fortes que atingiram a região no fim de junho. Hemerson Bovi, produtor em Monte Carmelo, na região do Triângulo Mineiro, diz que, com a colheita mecânica, a queda de grãos fica entre 15% e 25% da produção. Mas, por causa das chuvas, alcançou 50%.

“Nossa preocupação é tirar esse café do chão. Mas a gente ainda não conseguiu entrar com maquinário para colher porque o chão não está seco”, observa Bovi. O produtor, que cultiva 140 hectares, afirma que ele e outros cafeicultores da região enfrentam problema de fermentação do café que está no solo, o que reduz a qualidade da bebida. Ele também vê risco de aumento na proporção de café com qualidade riado ou rio.

Sérgio Meirelles Filho, presidente do Sindicato da Indústria de Café de Minas Gerais (Sindicafé-MG) , diz que a piora na qualidade do café, principalmente no sul do Estado, tem sido mais preocupante que o atraso da colheita. Ele observa que os primeiros cafés colhidos costumam apresentar qualidade mais alta. “Este ano, os primeiros cafés já estão com qualidade duro riado. É um café com fermentação por causa da chuva, que dá uma qualidade ruim de bebida. Qualidade ruim no começo da safra é alarmante”, afirma Meirelles.

O presidente do sindicato acrescenta que, por conta do clima mais chuvoso, muitos produtores relatam problema de mofo e podridão no café que caiu com a chuva e não foi colhido a tempo. Esses grãos são impróprios para consumo.

Meirelles cultiva 30 hectares de café em São Gonçalo do Sapucaí, no sul de Minas Gerais, e 175 hectares em Aricanduva, no Vale do Jequitinhonha. Ele informa que colheu 20% da área plantada no sul do Estado e 30% no norte e espera uma produção total de 7 mil a 8 mil sacas.


Fonte: Globo Rural

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