A transição energética global entrou em um ponto de inflexão, com a geração de eletricidade a partir de combustíveis fósseis em queda simultânea em países desenvolvidos e emergentes, ao mesmo tempo em que um conjunto de recomendações científicas tenta orientar governos na saída do petróleo, gás e carvão.
Dados divulgados nesta terça-feira, 28, pela Ember mostram que todos os 38 países da OCDE já ultrapassaram o pico histórico de geração fóssil.
Em 2025, pela primeira vez, economias fora do bloco como as gigantes China e Índia também registraram queda, indicando uma mudança positiva no setor elétrico rumo à descarbonização.
Impulsionada pela rápida redução de custos de fontes renováveis como solar e eólica, a transição já avança por dinâmica de mercado. Especialistas, no entanto, alertam que políticas públicas ainda não acompanham esse ritmo e governos precisam acelerar.
É nesse contexto que mais de 400 cientistas reunidos na Conferência de Santa Marta, na Colômbia, apresentaram um plano de recomendações para acelerar e organizar a saída dos combustíveis fósseis dos mais de 50 países participantes.
A iniciativa acontece após o lançamento de um painel científico global voltado à transição energética no primeiro dia do encontro e busca colocar a ciência no centro das decisões e negociações diplomáticas, com nomes como Carlos Nobre e Johan Rockström na liderança.
O chamado plano SMART (Santa Marta Action Repertoire) reúne 12 ações práticas para governos e integra um esforço mais amplo de transformar evidências científicas em políticas concretas.
Entre os principais pontos estão a necessidade de planos nacionais claros para eliminação gradual dos fósseis, estratégias para substituir receitas em países dependentes da produção e medidas para superar barreiras políticas, financeiras e institucionais.
Os especialistas também defendem que os chamados roadmaps nacionais sejam adaptados às realidades de cada país, com participação local e foco em uma transição justa.
As recomendações incluem desde estratégias de substituição de receitas em economias dependentes de petróleo até medidas como alívio da dívida, reforma de subsídios e criação de zonas livres de exploração.
Uma das propostas de cientistas é a ênfase na redução rápida das emissões de metano, considerada essencial para evitar o agravamento da crise climática no curto prazo, além da inclusão de setores como petroquímicos nas estratégias de transição.
“A mitigação do metano deve ser a primeira parada obrigatória nessa jornada”, destaca Carlos Nobre.
Colômbia sai na frente
Um dos exemplos é a Colômbia, que saiu na frente e lançou, já no primeiro dia da conferência, seu roteiro nacional para a transição e prevê cortar 90% do uso de combustíveis fósseis até 2050.
O documento estima custos de cerca de US$ 10,6 bilhões por ano para a transição, mas projeta benefícios mais que duas vezes maiores (US$ 23 bilhões anuais), com ganhos de eficiência, redução de custos operacionais e diminuição de impactos na saúde e no clima.
O movimento ocorre em paralelo a esforços diplomáticos para transformar compromissos climáticos em ações práticas e implementáveis.
Presidência da COP30 recebe contribuições e pressão por roteiros nacionais aumenta
O Brasil ainda não entregou seu roteiro nacional e está dois meses atrasados do prazo proposto em despacho presencial, o que aumenta a pressão sob o país que sediou a COP30 em Belém e coloca em xeque sua capacidade de liderar o debate climático.
A presidência brasileira da COP30, liderada pelo embaixador André Corrêa do Lago, recebeu 444 contribuições para seus processos de elaboração de dois roteiros internacionais: fim dos combustíveis fósseis e combate ao desmatamento.
Desse total, [grifar]267 foram especificamente voltadas ao plano de transição energética, com participação de países, blocos como a União Europeia, organizações e agências da ONU.
Segundo Corrêa do Lago, a adesão demonstra um interesse “enorme” em converter as promessas feitas na COP28, em Dubai, em planos concretos. Os documentos finais devem ser apresentados antes da COP31, que será realizada em novembro, em Antália, na Turquia.
Para os especialistas reunidos em Santa Marta, o momento é decisivo: a transição energética já está em curso e agora, o desafio é transformá-la em políticas capazes de acelerar a saída dos combustíveis fósseis sem aprofundar desigualdades.
Fonte: Exame com adaptações da MundoCoop












