O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, representa um marco global de reconhecimento das conquistas femininas e também um momento de reflexão sobre os desafios que ainda persistem na busca por igualdade de direitos e oportunidades.
Ao longo das décadas, essa mobilização contribuiu para avanços importantes em diferentes países, como a ampliação do acesso à educação, a conquista do direito ao voto e a criação de legislações voltadas à proteção e à equidade de gênero. Ainda assim, desigualdade salarial, barreiras de acesso a posições de liderança e violência de gênero continuam entre os desafios enfrentados por mulheres em diferentes partes do mundo.
No Brasil, a trajetória de conquistas também reflete esse processo histórico. A participação feminina na vida pública ganhou força a partir de marcos como o direito ao voto em 1932 e os avanços garantidos pela Constituição de 1988. Iniciativas legislativas mais recentes ampliaram os instrumentos de proteção às mulheres e fortaleceram o debate sobre igualdade de direitos e oportunidades.
Força feminina no cooperativismo
No cooperativismo brasileiro, a presença feminina tem se consolidado como um dos vetores de renovação do movimento. Dados do Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2025 indicam que as mulheres representam 42% do quadro social das cooperativas, o que corresponde a mais de 10 milhões de cooperadas em todo o país.
A participação feminina também é expressiva entre os profissionais que atuam nas cooperativas. Atualmente, 52% dos empregados do setor são mulheres, com destaque para ramos como Consumo, Crédito, Saúde e Trabalho, Produção de Bens e Serviços. Essa presença reforça o papel crescente das mulheres na gestão, na operação e no desenvolvimento das cooperativas em diferentes regiões do país.
A distribuição da participação feminina entre os ramos também evidencia características próprias de cada segmento. No ramo Saúde, por exemplo, as mulheres representam 75% dos empregados, enquanto no Crédito esse percentual chega a 59% e, no Consumo, a 57%. Já no Agro, a presença feminina corresponde a 37%, o que indica avanços, mas também revela espaço para ampliar a participação das mulheres em áreas historicamente masculinas.
Liderança e empreendedorismo
A ampliação da presença feminina no cooperativismo também aparece na liderança e no empreendedorismo. No Brasil, mais de 10 milhões de mulheres estão à frente de seus próprios negócios, segundo dados do Sebrae. Esse movimento amplia a demanda por crédito, capacitação e redes de apoio voltadas ao desenvolvimento de iniciativas lideradas por mulheres.
Nesse cenário, cooperativas financeiras têm desenvolvido programas específicos para fortalecer o empreendedorismo feminino e ampliar a presença das mulheres em espaços de decisão. Iniciativas voltadas à formação de lideranças, à criação de comitês e à oferta de linhas de crédito específicas ampliam a autonomia econômica feminina e fortalecem o impacto social do cooperativismo nas comunidades.
Experiências em cooperativas financeiras mostram como esse movimento se traduz na prática, tanto na gestão quanto no acesso ao crédito. No Sicoob Três Fronteiras, cooperativa de crédito com atuação no Paraná e no Rio Grande do Sul, por exemplo, duas a cada três pessoas do quadro de colaboradores são mulheres. Elas atuam em diferentes áreas da instituição e contribuem para consolidar uma cultura organizacional baseada na proximidade com os cooperados e na valorização das pessoas.
Além da presença nas equipes, o Sicoob Três Fronteiras mantém o Comitê Mulher, iniciativa voltada à promoção de ações de formação, incentivo à liderança e fortalecimento do protagonismo feminino dentro e fora da organização. A cooperativa também disponibiliza produtos direcionados às cooperadas, entre eles linhas de crédito voltadas ao empreendedorismo feminino desenvolvidas em parceria com o Sebrae.
O incentivo ao empreendedorismo feminino também aparece em outras cooperativas financeiras. O Sicredi, por exemplo, encerrou 2025 com uma carteira de crédito superior a R$ 17,5 bilhões destinada a empresas lideradas por mulheres, crescimento de mais de 12% em relação a 2024, quando o volume somava cerca de R$ 15,6 bilhões.
Para sustentar essa expansão, a instituição intensificou captações internacionais voltadas ao financiamento de negócios liderados por mulheres. Ao longo dos últimos cinco anos, as captações somaram R$ 3,3 bilhões, sendo R$ 1,13 bilhão apenas em 2025. Os recursos vieram de organismos como o Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF) e a Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA).
Além do crédito, a instituição mantém iniciativas voltadas à formação de empreendedoras. Entre elas está o Curso Mulher Empreendedora, criado em 2023 para apoiar a estruturação de pequenos negócios. O programa já contou com a participação de mais de 1.900 mulheres, entre modalidades on-line e presenciais.
Ciência e produção acadêmica
A presença feminina também se fortalece no campo da pesquisa sobre o cooperativismo. No 8º Encontro Brasileiro de Pesquisadores do Cooperativismo (EBPC), realizado em 2025, 61% dos artigos científicos apresentados tiveram liderança feminina, resultado que demonstra o crescimento da participação das mulheres na produção acadêmica sobre o setor.
Esse movimento amplia a diversidade de perspectivas na análise do cooperativismo e fortalece estudos sobre governança, gestão de pessoas, cultura organizacional e impacto socioeconômico das cooperativas.
Caminhos para o futuro
Apesar dos avanços observados nas últimas décadas, especialistas apontam que a ampliação da presença feminina em posições de liderança ainda representa um desafio em diferentes setores da economia. Barreiras estruturais, desigualdade salarial e a conciliação entre carreira e responsabilidades familiares continuam a influenciar a trajetória profissional de muitas mulheres.
No cooperativismo, iniciativas voltadas à formação de lideranças, à promoção da diversidade e à ampliação do acesso ao crédito indicam caminhos concretos para reduzir essas desigualdades. Ao ampliar a participação feminina em diferentes níveis de atuação, o movimento cooperativista fortalece sua governança, amplia sua capacidade de inovação e reforça seu compromisso com o desenvolvimento social e econômico das comunidades.
Em entrevista exclusiva à MundoCoop, Tânia Zanella, Presidente Executiva do Sistema OCB, avalia que o avanço da participação feminina no cooperativismo reflete um processo de transformação interna do próprio movimento, que busca alinhar sua governança e suas práticas aos princípios de inclusão e participação que sustentam o modelo cooperativista. “Esse momento não é sobre uma conquista individual — é sobre ampliar referências, abrir caminhos e mostrar que talento, preparo e compromisso com o interesse comum devem ser os critérios centrais para ocupar espaços de liderança. Para o cooperativismo brasileiro, é a confirmação de que estamos evoluindo também por dentro, fortalecendo a governança, modernizando a gestão e refletindo, cada vez mais, a diversidade do país”, afirma.
Por Redação MundoCoop












