O cooperativismo internacional enfrenta um cenário de crescente instabilidade geopolítica e é pressionado a reafirmar, de forma prática, seus princípios fundamentais, especialmente o da autonomia e independência. O alerta parte de uma análise de Peter Hunt, fundador e sócio-gerente do think tank Mutuo, ex-secretário-geral do Partido Cooperativo do Reino Unido, que acompanhou por mais de duas décadas a atuação internacional do setor.
A avaliação ocorre após o Ano Internacional das Cooperativas da ONU, celebrado em 2025, período que ampliou a exposição global do movimento. Para o especialista, o novo patamar de visibilidade exige cautela institucional, sobretudo nas relações com países cujos sistemas políticos confrontam valores democráticos.
Visitas institucionais reacendem o debate
O tema ganhou relevância após o presidente da Aliança Cooperativa Internacional (ACI) relatar em rede social uma série de compromissos internacionais, incluindo visitas oficiais ao Irã e à Rússia. Segundo Hunt, a aproximação institucional com entidades cooperativas desses países levanta questionamentos sobre o grau de independência de seus órgãos de representação em relação ao Estado.
Para o analista, o diálogo internacional não pode ignorar o contexto político no qual essas organizações estão inseridas.
Autonomia limitada
Em regimes autoritários, organizações cooperativas operam com autonomia restrita. No Irã, embora previstas constitucionalmente, as cooperativas seguem sob supervisão direta de ministérios, que influenciam processos eleitorais internos e a nomeação de dirigentes.
Na Rússia, a relação entre cooperativas e Estado também é estreita. O Conselho do Centrosoyuz, principal órgão cooperativo do país, mantém vínculos públicos com o governo central.
Para Hunt, esse tipo de estrutura compromete a capacidade de atuação independente das entidades nacionais.
Cooperativas e poder estatal
Na Rússia, o presidente do Centrosoyuz, Dmitry Zubov, recebeu em 2025 a Ordem de Alexandre Nevsky, honraria concedida pelo Kremlin. O reconhecimento, avalia Hunt, evidencia a proximidade entre a liderança cooperativa e o Estado russo, atualmente envolvido em conflito armado com a Ucrânia. Esse grau de integração dificulta posicionamentos críticos diante de violações de direitos humanos ou do direito internacional e transforma órgãos de cúpula cooperativa em instrumentos de projeção internacional de poder brando.
Princípios cooperativos
O quarto princípio cooperativo, autonomia e independência, ocupa posição central nesse debate. Hunt avalia que a ACI, como guardiã dos princípios internacionais do cooperativismo, precisa adotar critérios mais rigorosos na avaliação de seus membros. A aplicação seletiva desses valores compromete a credibilidade do movimento no cenário internacional.
A discussão envolve a revisão do status de filiação plena de organizações situadas em países onde a separação entre cooperativas e Estado é estruturalmente comprometida.
O debate acompanha a trajetória histórica da ACI. Após a Primeira Guerra Mundial, a organização manteve cooperativas da então União Soviética em seu quadro, em nome do internacionalismo cooperativo. Décadas depois, rompeu relações com cooperativas da Alemanha nazista e da Itália fascista durante a Segunda Guerra Mundial, ao considerar que essas organizações deixaram de operar de forma autônoma.
A tentativa do bloco soviético de utilizar cooperativas controladas pelo Estado como instrumento de influência internacional também foi rejeitada.
Exemplos e desafios futuros
Exemplos recentes reforçam o debate. No Reino Unido, o Grupo Co-operative adota uma política de comércio internacional baseada em valores e mantém uma lista de países considerados de preocupação, entre eles Rússia e Irã, evitando relações comerciais devido a violações de direitos humanos.
Para Hunt, o cooperativismo global atravessa um momento decisivo. A expansão da presença internacional exige mais do que diálogo e diplomacia institucional.
Em um ambiente internacional marcado por conflitos e tensões, a credibilidade do movimento dependerá da capacidade de transformar princípios históricos em práticas concretas.
Fonte: The Co-op News com adaptações da MundoCoop












