Um estudo premiado no 8º Encontro Brasileiro de Pesquisadores em Cooperativismo (EBPC) indica que as cooperativas de crédito apresentam desempenho eficiente e resiliente no sistema financeiro brasileiro, com resultados próximos aos dos bancos públicos e, em alguns períodos, superiores aos dos bancos privados. O artigo Cooperativas de crédito são mais eficientes que bancos? Evidências para o Brasil foi reconhecido como o melhor trabalho do eixo Contabilidade, Finanças e Desempenho da edição.
Assinado por pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa, da Texas A&M University e da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, o trabalho analisou dados do Banco Central entre 2000 e 2022. Ao todo, foram avaliadas 24.075 observações, sendo 21.311 referentes a cooperativas singulares, o que representa 88,5% da amostra. O recorte excluiu instituições não bancárias, garantindo maior comparabilidade entre cooperativas, bancos públicos e privados.
Mais de duas décadas de dados
A pesquisa utilizou informações contábeis e operacionais ao longo de 23 anos, considerando despesas com pessoal, administrativas e operacionais, além do volume de operações de crédito e outros financiamentos. Todos os valores foram atualizados para preços de 2022, o que permitiu uma comparação mais fiel ao longo do tempo.
O objetivo foi medir a eficiência técnica das instituições na intermediação financeira, observando como cada modelo transforma custos em concessão de crédito. Para isso, os autores separaram os fatores que afetam o desempenho em dois grupos: estruturais, ligados ao modelo de gestão, e conjunturais, associados a choques temporários, como crises econômicas.
Na média, a eficiência técnica total do sistema financeiro brasileiro ficou em 0,594, indicando que existe potencial para melhorar o uso dos recursos em cerca de 40%. Esse resultado é inferior ao observado em sistemas financeiros da zona do euro, da China e da Índia, segundo comparações feitas pelos próprios autores.
Cooperativas em posição competitiva
Na comparação entre os tipos de instituições, as cooperativas apresentaram eficiência estrutural semelhante à dos bancos públicos e desempenho superior ao dos bancos privados. A média da eficiência persistente foi de:
- 0,783 para cooperativas
- 0,754 para bancos públicos
- 0,648 para bancos privados
Ou seja, embora os resultados de cooperativas e bancos públicos sejam próximos, as cooperativas aparecem ligeiramente à frente na média histórica.
Até 2008, inclusive, as cooperativas lideravam o ranking de eficiência técnica média, superando tanto bancos públicos quanto privados. Após esse período, os bancos públicos assumiram a dianteira, impulsionados por políticas governamentais de expansão do crédito.
Resiliência após crise de 2008
O comportamento das instituições após a crise financeira global reforça as diferenças entre os modelos. Enquanto cooperativas e bancos públicos conseguiram reduzir a ineficiência ligada a fatores conjunturais, os bancos privados passaram a enfrentar maiores dificuldades.
Os dados mostram que, no período pós-2008, a redução da ineficiência foi mais intensa entre os bancos públicos, mas também significativa entre as cooperativas. Já entre os bancos privados, ocorreu movimento oposto, com aumento da ineficiência transiente.
Segundo os pesquisadores, esse padrão revela a maior capacidade de adaptação das cooperativas em cenários de instabilidade econômica, mantendo estabilidade operacional mesmo em períodos de retração do mercado.
Estrutura operacional diferenciada
O estudo também traz números que ajudam a explicar esse desempenho. As cooperativas são mais intensivas em trabalho e menos dependentes de capital. Em termos proporcionais, a intensidade de capital das cooperativas é menos da metade da observada nos bancos públicos e privados.
Essa estrutura mais enxuta favorece a proximidade com os associados, reduzindo a assimetria de informação e permitindo uma avaliação de risco mais personalizada. Para os autores, esse fator contribui diretamente para a eficiência estrutural observada ao longo do período analisado.
Juros mais baixos e inclusão financeira
Outro dado relevante aparece na comparação das taxas de juros. Em 2023, a média da taxa mensal cobrada pelos cinco principais bancos do país ficou em torno de 4,3% ao mês. No mesmo período, uma das maiores cooperativas de crédito do Brasil praticava taxa próxima de 0,25% ao mês.
A diferença é expressiva e ajuda a entender o papel das cooperativas na ampliação do acesso ao crédito, especialmente em municípios menores e entre pequenos empreendedores. Para o estudo, taxas mais baixas também estimulam a concorrência no sistema financeiro, pressionando os bancos tradicionais a reverem suas políticas.
Atuação durante a pandemia
No contexto da pandemia da COVID-19, os bancos públicos atuaram como principais instrumentos de política econômica contracíclica, concentrando grande parte da expansão do crédito. As cooperativas, embora não tenham ocupado posição central nesse processo, demonstraram relevância ao ocupar espaços deixados pelos bancos privados, que reduziram sua atuação.
Nesse período, elas ampliaram operações de menor porte, reforçando sua presença como canais importantes de distribuição de crédito, sobretudo para segmentos mais vulneráveis e menos atendidos pelo sistema financeiro tradicional.
Implicações para políticas públicas
Ao final, os autores concluem que as cooperativas exercem papel estratégico para a eficiência e a estabilidade do sistema financeiro brasileiro. O estudo recomenda políticas públicas voltadas ao fortalecimento da:
- governança
- capacitação
- inovação tecnológica
Na avaliação dos autores, o avanço das cooperativas de crédito tende a ganhar ainda mais relevância nos próximos anos, especialmente em municípios de menor porte e regiões com baixa oferta bancária. Com eficiência estrutural média de 0,783, superior à dos bancos privados, o estudo indica que o fortalecimento do modelo cooperativista pode contribuir diretamente para ampliar o acesso ao crédito, estimular economias locais e reduzir assimetrias regionais, reforçando o papel dessas instituições como agentes estratégicos do desenvolvimento financeiro no país.
Fonte: Sistema OCB com adaptações da MundoCoop












