Diante de um cenário de crédito rural cada vez mais apertado em função de endividamento e juros altos, a busca por consórcios para investimentos tem crescido entre os produtores brasileiros, principalmente para aquisição de máquinas e implementos agrícolas.
De acordo com a Associação Brasileira das Administradoras de Consórcios (Abac), o montante de créditos comercializados para a aquisição de máquinas agrícolas por meio desse instrumento avançou 14% de janeiro a novembro de 2025, com movimentação de R$ 23,7 bilhões ante R$ 20,8 bilhões no mesmo período de 2024. O segmento já responde por 51% da comercialização de veículos pesados nessa modalidade.
O número de participantes ativos cresceu quase 7% no período, para 471,7 mil. Mesmo assim, houve retração na venda de cotas até novembro do ano passado. Na comparação com 2024, o ritmo de contratações ficou mais lento e o número de novos consorciados recuou 17,3%, para 93,4 mil. O tíquete médio dos consórcios de máquinas agrícolas no penúltimo mês de 2025 evoluiu 15,5%, para R$ 282,7 mil.
No Sicredi, uma das principais cooperativas financeiras do país, já são mais de R$ 16,1 bilhões em carteira de consórcios para o público agro até novembro de 2025, alta de 24,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. O setor agropecuário representa mais de um quarto da carteira geral de crédito ativo nessa modalidade na instituição, que já ultrapassa R$ 61 bilhões. As vendas de cotas para clientes do campo somaram R$ 3,8 bilhões no ano passado, crescimento de 23,7%.
No Sicredi, os produtores rurais associados adquiriram consórcios para diversas finalidades. A compra de automóveis lidera, com 51,5%. Na sequência, estão aquisições de veículos pesados, como máquinas agrícolas, implementos e drones, com 16,5%, e de imóveis (15,2%). O ticket médio de vendas no segmento é superior ao dos consórcios em geral, com valor de R$ 164,9 mil, informou a instituição.
“O consórcio agro do Sicredi se destaca por oferecer taxas competitivas, altos índices de contemplação mensal e planos flexíveis, alinhados ao ciclo produtivo do campo”, afirma o diretor executivo de Produtos e Serviços do Sicredi, Thiago Rossoni.
Em tempos de Selic alta, o principal ativo dessa modalidade de financiamento é a ausência de cobrança de taxa de juros, destaca o diretor. Clientes pagam uma taxa de administração e de fundo de reserva. Rossoni aponta ainda a abrangência do consórcio como outro diferencial. Segundo ele, o portfólio contempla todos os perfis e subsegmentos do agronegócio, o que viabiliza a aquisição de diversos bens.
“Reconhecemos o consórcio como uma solução estratégica para o produtor, permitindo planejamento e investimento de forma sustentável”, completou.
No Banco do Brasil, a carteira de consórcios para clientes do agro alcançou R$ 47 bilhões em 2025, crescimento de 14,6% ante os R$ 41 bilhões de 2024. Os clientes do setor já representam 30% das cotas ativas na BB Consórcios.
No ano passado, o BB comercializou 458 mil novas cotas no total. No segmento agro, foram 40 mil, o que ajudou a manter a liderança do setor, com 301 mil cotas ativas. Segundo o banco, produtores rurais adquiriram cerca de R$ 8 bilhões em veículos de passeio e utilitários, máquinas e equipamentos agrícolas. Outros R$ 3 bilhões foram destinados à aquisição, reforma ou construção de imóveis rurais e urbanos.
“O consórcio se consolidou nos últimos anos como uma ferramenta versátil e inteligente para alavancar oportunidades no agronegócio, oferecendo planejamento financeiro, custo-benefício atrativo e sustentabilidade”, informou o Banco do Brasil. A modalidade também pode ser acessada para aquisição de rebanho, construção e compra de imóvel rural, aquisição de sistema fotovoltaico, veículos off-road, entre outros.
No Sicoob, as cartas de consórcio para o público agro variam de R$ 35 mil a R$ 980 mil, com possibilidade de unificação de cotas. A carteira geral da instituição nessa modalidade já passa de R$ 61 bilhões, com expansão de 35% no ano passado, quando foram comercializadas 140 mil novas cotas. Cerca de 15% do montante administrado em consórcios atende produtores rurais para aquisição de caminhonetes, máquinas e implementos agrícolas, aviões agrícolas, entre outros.
“Cada vez mais está se tornando uma ferramenta de aquisição planejada mais consciente com valor final bem mais acessível. Ainda mais agora que estão aumentando as alternativas de aquisições no meio do agro negócio”, afirmou o Sicoob, em resposta à reportagem.
Para Cléber Gomes, sócio-fundador da Maestria, empresa especializada no tema, o consórcio rural tem avançado por conta cenário de maior restrição do crédito tradicional e das especificidades, como menor custo e mais previsibilidade. O instrumento tem atraído pequenos e médios agricultores, segundo ele.
“Essa alta se dá exatamente porque quem compra pelo banco tem até 60 meses para pagar. No consórcio, o pagamento pode ser feito em até 180 meses, ou seja, são 15 anos para pagar. É por isso que cada vez mais pessoas do campo têm buscado essa modalidade, ainda mais em um momento em que o crédito está caro e difícil de obter”, avalia.
O público rural que opta pelo consórcio para aquisição de máquinas agrícolas é, majoritariamente, formado por pessoas físicas que produzem soja, milho e arroz, principalmente do Centro-Oeste brasileiro. “Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás são as regiões com a maior aquisição de máquinas e procura por cotas no consórcio”, diz Gomes.
Ele afirma que o produtor rural tem se preocupado mais com o planejamento financeiro e a gestão do fluxo de caixa. “Essa modalidade permite que ele programe a compra de um trator, colheitadeira ou implemento sem precisar se endividar com juros altos, o que garante mais previsibilidade e segurança para o negócio”, completa.
Além disso, avalia, muitos produtores usam o consórcio como uma “poupança programada”, que ajuda a proteger seu capital e a expandir a produção com custo menor.
Fonte: Globo Rural com adaptações da MundoCoop












