Diretor executivo da Unicred União, escritor e uma das vozes mais atentas às transformações do cooperativismo brasileiro, Marcelo Vieira Martins gosta de ir direto ao ponto. Ele fala de números com naturalidade, mas sempre volta a um tema central: gente. Para ele, uma cooperativa só faz sentido quando está por perto, ajudando a resolver a vida real das pessoas.
Nesta entrevista, Marcelo revisita os resultados de 2025, explica por que acredita que o cooperativismo precisa se tornar um projeto de país e defende, sem rodeios, que formar novas gerações cooperativistas é tão estratégico quanto crescer em números.
Quando você olha para 2025, não apenas para os números, mas também para a performance da Unicred União e a relação com os cooperados, que leitura faz do ano? O que, de fato, ficou como aprendizado e resultado para a cooperativa?
Sempre repito que o cooperativismo no qual acredito é aquele que aparece nas horas certas. É presença, parceria, compromisso, por isso é indispensável. Em 2025, trabalhamos muito para garantir essa proximidade real com quem confia na cooperativa e, na minha visão, conseguimos. Os números confirmam, mas são consequência. Chegamos ao patamar de R$ 4 bilhões em ativos e entramos no seleto grupo das cooperativas de crédito de grande porte no Brasil. Temos a maior carteira de crédito do Sistema Unicred e alcançamos 32 mil cooperados em Santa Catarina e no Paraná. Esses resultados nos orgulham, claro, mas não servem apenas para apresentação de slides. Para mim, eles indicam algo mais profundo: estamos conseguindo transformar expectativas em entregas que mudam a vida das pessoas. Quando o cooperado percebe que pode confiar e que a instituição está ao lado, isso cria um vínculo impossível de se valorar. É o que chamo de concretização da confiança, o verdadeiro indicador para o cooperativismo. Essa é a nossa maior conquista de 2025 e dos anos anteriores.
Muitas instituições afirmam que “cuidam das pessoas”. No caso de uma cooperativa de crédito, o que significa cuidar na prática? Pode descrever uma situação concreta em que isso fica evidente?
Cuidar não é slogan. Cuidar é estar disponível quando o cotidiano dita. Por exemplo, sempre me incomodou aquela ideia de que o ano só começa depois do Carnaval. Para nós, o ano começa agora em janeiro, quando o cooperado precisa organizar sua vida financeira com responsabilidade. Por isso, mobilizamos 100% da equipe da cooperativa justamente em um período em que boa parte do mercado diminui o ritmo. Enquanto muitos desaceleram, nós intensificamos o atendimento, reforçamos equipes, ampliamos presença. É um momento em que as pessoas estão viajando, planejando investimentos, iniciando negócios, reorganizando despesas familiares. Elas precisam de orientação, clareza e soluções. O cooperativismo de crédito só é relevante quando entende a realidade concreta de quem precisa dele.
Em 2025 você lançou o livro “Coopland – Passaporte para o sucesso”, no qual você cria uma metáfora poderosa: um país imaginário estruturado nos valores do cooperativismo. Para quem ainda não leu, como você resume essa ideia e como imagina trazer mais habitantes para Coopland, ou seja, tornar o cooperativismo mais popular?
Coopland é uma provocação. Eu convido o leitor a imaginar um país que funciona a partir de princípios cooperativos. Nesse exercício, fica evidente que muitos indicadores sociais e econômicos seriam melhores do que vemos na maioria das nações reais. Claro que Coopland não existe como território. É uma abstração. O ponto central é outro: essa experiência está ao alcance de qualquer pessoa que decida fazer parte de uma cooperativa. Não é ficção, é escolha. Mas existe um obstáculo que me preocupa, e aqui faço uma autocrítica: nós, do movimento cooperativista, falhamos historicamente na educação. Falhamos em mostrar o impacto que o cooperativismo tem na vida individual e, ao mesmo tempo, no coletivo. Precisamos formar gerações cooperativistas, explicar com clareza que se trata de uma forma de produzir, consumir e decidir na qual todos ganham. Cooperar não é um gesto romântico, é um modelo eficiente de desenvolvimento.
Se o grande desafio é formar essas novas gerações, por onde começar? O que, de fato, precisa mudar para que o cooperativismo seja entendido como projeto de longo prazo?
Começa por políticas públicas que enxerguem o cooperativismo como ferramenta estratégica. Municípios, estados e governo federal precisam criar ambientes mais favoráveis: estrutura de apoio, linhas de fomento, programas de capacitação, marcos regulatórios menos engessados. Não se trata de privilégios, e sim de reconhecer que cooperativas geram renda, distribuem oportunidades e fortalecem economias locais, tudo isso de modo até mais eficiente do que outros modelos. Não é privilégio, é inteligência econômica. Depois vem a educação. A escola é decisiva. Um professor que nunca teve contato com o cooperativismo dificilmente vai ensinar cooperação como valor e como prática. Precisamos incluir o tema na formação docente e criar experiências reais dentro das salas de aula: projetos coletivos, decisões compartilhadas, responsabilidade dividida. Quando a criança cresce em um ambiente que valoriza a cooperação, ela passa a entender que o sucesso não é apenas individual.
Olhando para o cenário do país, para as mudanças tecnológicas e para o comportamento das pessoas, que expectativas você tem para 2026 no cooperativismo de crédito?
Eu enxergo crescimento consistente. Não porque o cooperativismo virou moda, mas porque ele responde a um problema crônico do Brasil: a concentração bancária. Quando poucas instituições concentram decisões e recursos, a economia fica menos dinâmica e a população, menos incluída. A cooperativa faz o movimento contrário. Ela está no interior, no município pequeno, perto do comércio local, da agricultura, dos profissionais liberais. Conhece as histórias, compreende o risco, acompanha o desenvolvimento. Isso amplia a inclusão financeira e abre espaço para que mais pessoas acessem crédito de forma responsável. Se continuarmos próximos das comunidades, inovando com propósito claro e preservando a transparência nas relações, 2026 tende a ser um ano de expansão ainda maior. E com sentido claro: crescer por crescer não nos interessa; crescer para servir melhor, sim.












