Com a centralidade das tomadas de decisões focada nas pessoas em detrimento do capital, o cooperativismo, desde sua origem, vivencia a ideia da interdependência humana. E para tanto, seu propósito se volta para a vida, para a comunidade e sua prosperidade.
A máxima que diz que, aquilo que for bom para a colmeia é bom para a abelha, retrata a relevância do coletivo em favor do indivíduo e nos convida a agir para alcançarmos uma sociedade mais consciente de sua interdependência.
Estudos do Fundo Monetário Internacional (FMI) indicam que a redução da desigualdade de renda pode levar a um crescimento econômico mais sustentável e robusto em todo o mundo. Sugere que uma distribuição de renda mais equitativa está positivamente ligada a: estabilidade econômica, aumento do PIB e prosperidade compartilhada.
Para além da desigualdade econômica, ainda temos a desigualdade de gênero, social, de acesso, racial e regional. Não são pautas simples de resolver, mas precisam do legítimo enfrentamento de todos no sentido de reduzir seus efeitos extremos e impactos mais severos, em favor exatamente de…todos!
Se existe o conceito da pegada de carbono (rastro dos gases de efeito estufa gerados pela atividade humana) e a inquestionável interdependência como um efeito dominó, poderíamos nos despertar para, de forma análoga, considerarmos a ideia da pegada da desigualdade, ou seja, qual a nossa ‘contribuição’ para o aumento ou a redução das desigualdades extremas. Qual o rastro de desigualdade que deixamos diariamente com base nas nossas escolhas e atitudes?
Em consonância com a afirmação da ONU, que cooperativas constroem um mundo melhor, nosso admirável Roberto Rodrigues destaca a importância do cooperativismo para a promoção da paz mundial, muito pelo fato de que o cooperativismo promove a inclusão das pessoas que estão excluídas do sistema econômico convencional, proporcionando assim, oportunidades e perspectivas melhores. Portanto, é inegável que cooperativismo é um instrumento redutor das desigualdades.
O cooperativismo tem feito inigualáveis entregas neste sentido e possui gigantesco potencial para modificar radicalmente essa realidade! A materialização deste potencial passa pela eficiência operacional das cooperativas, comungada com seus valores e princípios e ganha cada vez mais tração, na medida em que pessoas do mundo todo experimentam no cooperativismo esse instrumento transformador.
Como já escrevi em outra oportunidade, o cooperativismo por natureza é um despertador da consciência coletiva, mas este despertar fora do cooperativismo é por vezes lento e rarefeito.
Tome o fato de que dos 8 bilhões de habitantes no mundo, temos 1 bilhão de cooperados e dos 213 milhões de brasileiros, temos 26 milhões de cooperados. Essa relação releva o gigantesco potencial que ainda existe de transformação por meio do cooperativismo.
Embora haja grande espaço para as cooperativas se comunicarem melhor com aqueles que não conhecem o setor, por vezes cogito que esta enorme massa humana, se encontra presa em suas bolhas digitais, vivendo com recortes da realidade e narrativas que só reforçam as suas próprias crenças num looping sem fim. Algo como os prisioneiros da caverna de Platão que permaneceram inertes e presos em suas ilusões, mesmo sendo provocados a pensar e agir em direção da realidade.
Mas como afirmou Buckminster Fuller: “Você não muda as coisas lutando contra a realidade atual. Para mudar algo é preciso construir um modelo novo que tornará o modelo atual obsoleto”. Tenho para mim que 1 milhão de pessoas no mundo já experimentam este modelo diferente, onde além da árvore, se enxerga a floresta e onde a atuação é COM os outros e para todos e não CONTRA os outros e para si.
O olhar coletivo e a atitude neste sentido, se revelam no único modo de termos uma jornada para o destino certo. O cooperativismo, por tudo o que é, se converte em singular percurso entre o que somos e aquilo que podemos ser, enquanto sociedade mais inclusiva, justa e próspera e com muito menos pegadas da desigualdade. Então, se você faz parte de uma cooperativa, meus parabéns!
*Por Silvio Giusti, Consultor sênior, palestrante e articulista em cooperativismo

Coluna exclusiva publicada na edição 128 da Revista MundoCoop











