A ordem dos seguranças era não tirar fotos na Capela Sistina, mas…minha ínfima fração de subversidade resolveu aparecer exatamente naquele momento! Segurando a câmera na mão na altura da cintura e virando o foco para o teto fui me movendo no meio do público até ficar bem abaixo da icônica pintura de Michelangelo, denominada ‘A criação de Adão’ e ali sem ter ideia exata do que estava enquadrando apertei o botão da câmera. Depois que sai da capela, verifiquei, para meu espanto, que fotografei exatamente onde o dedo de Deus quase toca o dedo de Adão, simbolizando a transmissão da vida e da alma humana para o primeiro homem.
Desde que surgiu, o cooperativismo, como sociedade de pessoas, tem seus updates naturalmente atrelados a evolução da humanidade e assim, segue se reinventando constantemente, a fim de enfrentar e criar soluções para os vários desafios que, ao longo da história vão se apresentando. Dentre eles, agora se destaca a crucial missão de conectar e trazer para o seu seio as novas gerações.
No caso da geração Z, segundo minha IA, essa conexão exige traduzir a essência centenária do cooperativismo para a linguagem, as prioridades e o formato de engajamento nativo desta geração.
O cooperativismo tem um propósito irretocável, mas precisa fazê-lo dialogar com a configuração comportamental da geração Z.
Uma geração que é digitalmente nativa, tem agilidade cognitiva, prefere aprendizado visual e alimenta paixão por micro-conteúdo, esses elementos já trazem fortes sinais de que é preciso ‘embalar’ as informações de uma forma diferente da convencional. Por outro lado, esta mesma geração tem apreço pela autenticidade, pelo ativismo seletivo, pela ética e propósito altivo, portanto, fatores altamente aderentes com a essência cooperativista.
Nessa ótica se mostra relevante sintonizar a frequência do diálogo e do vocabulário, afinal diferente de um modelo hierárquico e burocrático o cooperativismo pode ser apresentado como um squad, uma comunidade de propósito, com escolha ativa, que por meio da adesão voluntária e livre busca sua autenticidade. Onde o capital não é fator determinante e a transparência, a inclusão e a governança horizontal são alcançadas por meio da gestão democrática. Nessa mesma pegada, o engajamento tem recompensa de forma proporcional, com retorno justo, results sharing e combate às desigualdades com a participação nos resultados.
Além disso, o cooperativismo tem controle descentralizado, democrático, livre, decide seu próprio destino, atende aos interesses locais, sem o domínio de grandes stakeholders externos ou acionistas anônimos, demonstrando toda sua autenticidade e personalidade, por meio da sua autonomia e independência.
Para ficar melhor, acrescente ainda a condição de upskiling contínuo, ambiente potencial para growth hacking, de tal forma que uma cooperativa pode se apresentar como uma grande aceleradora de conhecimento, habilidades e atitudes por meio da educação, formação e informação.
E se você pensa que acabou, ainda tem mais, pois o cooperativismo pode ser visto como um ecossistema de networking cheio de oportunidades com potencial gigantesco e solidário, por meio da intercooperação e, por fim, todo o impacto social e econômico, alinhado com ESG e ODS, voltado para a prosperidade das pessoas e da comunidade de forma sustentável por meio do genuíno interesse pela comunidade.
Ou seja, a depender da perspectiva, o cooperativismo já se converte em uma plataforma moderna e autêntica, com vários gatilhos de convergência e oportunidades para que a Geração Z possa construir riqueza e impacto social de forma colaborativa, gerando desenvolvimento local sustentável, prosperidade compartilhada, promoção e defesa da vida, por meio dos valores e princípios cooperativistas.
Portanto, é preciso conectar essas trajetórias e potencializá-las pela convergência de interesses.
Além de avançar na praticidade, conveniência, tecnologia e inovação, há de se evoluir na comunicação e conexão do setor com a geração Z e esta por sua vez, precisará sair da bolha apelativa do modismo e da sedução comercial de boa parte dos influencers, precisará sentir a chuva no rosto e a terra na sola do pé, para que além dos ambientes das redes sociais, possa ter propriedade de tomar suas decisões, quer sejam por meio da movimentação de seu dedo em uma tela, quer sejam por outro modo, a fim de protagonizar com senso crítico e plena consciência, garantindo que suas escolhas estejam em linha com os seus valores e com a vida no e do planeta.
Assim como no afresco de Michelangelo precisamos encostar os dedos e fazer a devida conexão do cooperativismo com a geração Z, pois é tão somente por meio dessa esteira que será possível transmitir toda a particular essência e capacidade transformadora do cooperativismo, assegurando a sua efetiva perenidade e propósito, como um legado para as próximas gerações e um patrimônio intergeracional em favor da vida.
*Por Silvio Giusti, Consultor sênior, palestrante e articulista em cooperativismo

Coluna exclusiva publicada na edição 127 da Revista MundoCoop










