Coop News 688

Cooperativas são reconhecidas como cultura nacional e avançam na agenda de políticas públicas

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O cooperativismo brasileiro conquistou, nesta quarta-feira (17), dois importantes avanços em sua agenda de fortalecimento institucional e econômico. Publicadas no Diário Oficial da União, as novas normas reconhecem o cooperativismo como manifestação da cultura nacional e passam a permitir expressamente que cooperativas sejam beneficiárias dos recursos dos Fundos de Desenvolvimento da Amazônia (FDA), do Nordeste (FDNE) e do Centro-Oeste (FDCO).

A Lei nº 15.433 considera o setor parte do conjunto cultural brasileiro e determina que o Estado garanta a livre atividade das cooperativas e apoie o modelo, conforme previsto na Constituição Federal. A proposta reconhece o papel histórico do cooperativismo na formação social e econômica do país, presente em diversos setores e associado a valores como colaboração e gestão coletiva.

Já a Lei Complementar nº 231/2026 inclui as cooperativas entre os beneficiários dos três fundos regionais de desenvolvimento, que reuniram, em 2025, cerca de R$ 3 bilhões destinados ao financiamento de projetos produtivos e estruturantes nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. A medida amplia as possibilidades de investimento e garante segurança jurídica para o acesso das cooperativas a recursos voltados ao desenvolvimento regional.

Reconhecimento institucional

O reconhecimento do cooperativismo como manifestação da cultura nacional reforça o papel do setor na construção econômica e social do país. Presente em diferentes segmentos produtivos, o modelo cooperativista está associado a princípios de colaboração, gestão coletiva e desenvolvimento local.

Além de integrar oficialmente o conjunto das manifestações culturais brasileiras, a nova legislação reafirma o compromisso do Estado com a promoção e o apoio ao cooperativismo, em consonância com os princípios previstos na Constituição Federal.

Acesso a investimentos

A Lei Complementar nº 231/2026 corrige uma lacuna na legislação que, embora não proibisse a participação das cooperativas nos fundos regionais, também não as reconhecia de forma explícita entre os potenciais beneficiários dos recursos. Com a nova lei, as sociedades cooperativas passam a ter segurança jurídica para acessar financiamentos destinados a empreendimentos estruturantes e projetos estratégicos para o desenvolvimento regional.

Os fundos regionais são instrumentos federais voltados ao financiamento de iniciativas com elevado potencial de geração de emprego, renda e desenvolvimento econômico. Entre os projetos apoiados estão obras de infraestrutura, agroindústrias, iniciativas de inovação, projetos de transição energética e empreendimentos voltados à agregação de valor à produção local.

Na prática, os recursos desses fundos poderão ser destinados não apenas a empresas, mas também a sociedades cooperativas, desde que organizadas conforme a legislação do setor. A mudança foi feita por meio de alterações nas Medidas Provisórias nº 2.156-5/2001 e nº 2.157-5/2001, além da Lei Complementar nº 129/2009, que passam a incluir expressamente as cooperativas entre os empreendimentos aptos a acessar os recursos dos três fundos.

“Essa é uma vitória muito significativa para o cooperativismo brasileiro. A nova lei reconhece o que já vemos na prática: as cooperativas são capazes de transformar realidades, gerar oportunidades, agregar valor à produção e promover desenvolvimento sustentável. Ao garantir esse acesso, o país amplia as condições para que mais cooperativas invistam, cresçam e contribuam ainda mais para o desenvolvimento econômico e social das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste”, afirmou a presidente executiva do Sistema OCB, Tania Zanella.

Tania também comentou sobre a correção da lacuna nas legislações anteriores. “Não fazia sentido que cooperativas, responsáveis por movimentar economias regionais e gerar prosperidade em milhares de municípios brasileiros, não estivessem contempladas de forma expressa nesses mecanismos de fomento. Essa adequação traz segurança jurídica e cria novas oportunidades para investimentos estruturantes.”

Atuação do Sistema OCB

A inclusão das cooperativas entre os beneficiários dos fundos regionais integra a Agenda Institucional do Cooperativismo e contou com atuação permanente do Sistema OCB ao longo da tramitação da proposta no Congresso Nacional. O trabalho foi realizado em parceria com entidades representativas do setor agropecuário e envolveu diálogo técnico com parlamentares, ministérios e órgãos responsáveis pelas políticas de desenvolvimento regional.

A conquista é resultado de uma construção coletiva que mobilizou parlamentares comprometidos com o fortalecimento do desenvolvimento regional e do cooperativismo, entre eles o autor do Projeto de Lei Complementar (PLP) nº 262/2019, senador Flávio Arns, além dos parlamentares Arnaldo Jardim, Daniel Agrobom, Marussa Boldrin, Bia Kicis, Pedro Lupion e da senadora Teresa Leitão.

Cooperativismo financeiro supera R$536 bi em carteira de crédito

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O cooperativismo de crédito brasileiro ultrapassou a marca de R$ 536 bilhões em carteira de crédito em março de 2026. Os dados são do levantamento Bi.Coop, elaborado a partir de informações do IFData, do Banco Central, e retratam a dimensão alcançada pelos sistemas cooperativos que atuam no país.

O volume de operações evidencia a escala atingida pelo segmento, que reúne cooperativas com diferentes perfis de atuação, abrangência geográfica e modelos organizacionais. Juntas, essas instituições somam mais de meio trilhão de reais em crédito concedido, consolidando um mercado formado por sistemas nacionais, regionais e cooperativas independentes.

Os números também demonstram a diversidade que caracteriza o cooperativismo de crédito brasileiro, composto por organizações de diferentes portes e estratégias de atuação, mas que compartilham o modelo cooperativista na oferta de serviços financeiros.

Mais de meio trilhão em operações

O levantamento do Bi.Coop mostra que a carteira de crédito das cooperativas atingiu R$ 536,3 bilhões em março deste ano. O resultado oferece um retrato atualizado do porte alcançado pelo segmento e da capacidade operacional desenvolvida pelos diferentes sistemas cooperativos ao longo dos últimos anos.

A distribuição da carteira evidencia a presença de organizações de grande escala, ao mesmo tempo em que aponta a contribuição de sistemas regionais e de cooperativas independentes para a composição do setor.

Como está distribuída a carteira de crédito

Segundo o levantamento, o Sicredi registra uma carteira de crédito de R$ 225,2 bilhões, o equivalente a 42% do total. O Sicoob aparece na sequência, com R$ 212,6 bilhões e participação de 39,6%.

Na continuidade do ranking estão a Cresol, com R$ 42,1 bilhões em operações e participação de 7,8%; a Unicred, com R$ 20 bilhões e 3,7%; a Ailos, com R$ 17,4 bilhões e 3,2%; as cooperativas independentes, que somam R$ 14,3 bilhões e representam 2,7% da carteira; a CrediSIS, com R$ 3,4 bilhões e participação de 0,6%; e a Uniprime, com R$ 1,3 bilhão, correspondente a 0,2% do total.

Os dados, referentes a março de 2026 e consolidados pelo Bi.Coop a partir das informações do IFData/Bacen, apresentam um panorama da distribuição da carteira de crédito entre os diferentes sistemas cooperativos que compõem o segmento no Brasil.

O movimento das cooperativas para conquistar os canais digitais

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O WhatsApp deixou de ser apenas um canal complementar de atendimento para assumir um papel estratégico dentro das instituições financeiras. Nas cooperativas de crédito, a plataforma passou a concentrar jornadas completas de relacionamento, suporte e negócios, exigindo um novo nível de governança, rastreabilidade e controle operacional.

A transformação impõe um desafio importante às organizações: como ampliar a escala do atendimento sem perder a proximidade característica do cooperativismo. Nesse cenário, conceitos como “100% de governança no WhatsApp” e modelos de coexistence ganham espaço ao combinar automação, padronização e interação humana de forma integrada.

Governança passa a ser prioridade

Rafael Souza, CEO e Co-founder da Ubots, destaca que a governança começa quando as conversas deixam de estar vinculadas ao colaborador e passam a ser controladas institucionalmente.

“O ponto de partida é simples: a governança existe quando as conversas pertencem à instituição, e não ao funcionário. Enquanto a comunicação acontece pelo WhatsApp instalado no celular pessoal ou corporativo do colaborador, é o funcionário quem detém o controle. A instituição não tem visibilidade, não tem histórico e não tem controle sobre o que acontece naquele canal”, afirma o CEO.

Segundo ele, a ausência de uma estrutura robusta de gestão expõe as cooperativas a riscos operacionais, regulatórios e estratégicos. “Sem controle sobre as conversas, a instituição fica mais exposta a vazamentos de dados, descumpre exigências da LGPD e encontra dificuldades para responder a eventuais auditorias ou questionamentos regulatórios”, complementa.

Além dos riscos relacionados à segurança, a descentralização do atendimento também gera impactos operacionais relevantes. Sem uma estrutura centralizada, as cooperativas perdem histórico de interações, comprometem a continuidade do relacionamento com o cooperado e dificultam a extração de indicadores estratégicos a partir das conversas realizadas nos diferentes dispositivos utilizados pelos colaboradores.

Esse movimento reflete uma transformação mais ampla dentro das instituições financeiras. O que antes era tratado apenas como um canal de comunicação passou a ocupar uma posição estratégica nas operações, concentrando relacionamento, negócios e atendimento em um único ambiente. Com isso, garantir rastreabilidade, padronização e continuidade das interações tornou-se essencial não apenas para atender exigências regulatórias, mas também para sustentar crescimento, eficiência operacional e qualidade na experiência.

Escala com atendimento consultivo

Na prática, o avanço desse modelo já começa a transformar a operação. A Viacredi, uma cooperativa Ailos, iniciou em 2024 um processo de centralização do WhatsApp após identificar riscos no modelo descentralizado adotado durante a pandemia.

A cooperativa então migrou para um número oficial verificado pela Meta e estruturou uma operação centralizada, com foco em segurança, rastreabilidade e padronização do atendimento. O processo exigiu uma reorganização ampla da operação, envolvendo o recolhimento gradual dos aparelhos utilizados anteriormente, o treinamento de mais de 1.600 colaboradores e o redesenho dos fluxos de relacionamento.

A mudança também incluiu a revisão das regras de acesso, distribuição de carteiras e integração entre atendimento humano e automação, criando uma estrutura capaz de sustentar crescimento com maior controle operacional.

Um dos principais desafios era evitar a perda da relação próxima com o cooperado, especialmente no segmento empresarial. Para isso, a instituição adotou o modelo coexistence, que mantém o WhatsApp Business do gerente integrado à plataforma corporativa. “A percepção de perda de proximidade foi tratada de forma estratégica com a adoção do modelo coexistence, que manteve o WhatsApp Business do gerente integrado à plataforma corporativa, preservando a relação direta e consultiva com esse público”, pontua Rafael Ganzer, Gerente de Canais da Viacred.

A estratégia também responde a uma das principais preocupações das cooperativas no avanço da digitalização: manter a proximidade característica do relacionamento consultivo sem abrir mão do controle operacional. Nesse contexto, o modelo coexistence surgiu como uma alternativa para equilibrar as duas necessidades. “O modelo reconcilia os dois lados. A instituição ganha visibilidade, governança e automação sem uma ruptura na forma como os atendentes operam”, lembra Rafael Souza, da Ubots.

Maturidade digital exige mudança cultural

A evolução do WhatsApp e outros canais dentro das cooperativas também exige mudanças culturais. Mais do que implementar tecnologia, as instituições precisam estruturar processos, indicadores e políticas claras de acesso e operação.

Na Viacredi, a governança da operação passou a ser conduzida por uma equipe dedicada, responsável pelo gerenciamento de acessos, administração dos números oficiais e evolução contínua da estratégia digital. Os resultados aparecem em escala. A cooperativa registrou mais de 125 mil atendimentos mensais pelo aplicativo, com índice de satisfação superior a 97%. “Na prática, o cooperado pouco percebeu a mudança — a proximidade com o gerente foi preservada, mas agora com mais segurança, rastreabilidade e profissionalismo”, complementa.

Mais do que organizar fluxos de atendimento, o avanço da governança no WhatsApp abre espaço para uma nova lógica de gestão dentro das cooperativas. As interações deixam de ser apenas conversas operacionais e passam a funcionar como fonte estratégica de informação sobre comportamento, necessidades e oportunidades de relacionamento. “As conversas com clientes são um ativo de altíssimo valor. Carregam intenção, contexto, dúvidas, sinais de compra e insatisfação. Sem governança, esse ativo se perde”, finaliza Souza.

Nesse novo cenário, o desafio das cooperativas vai além da digitalização. A discussão passa a envolver maturidade operacional, capacidade de escala e preservação da essência do relacionamento humano que sustenta o cooperativismo. À medida que o WhatsApp se consolida como principal ponto de contato entre instituições e cooperados, cresce também a necessidade de construir operações mais integradas, seguras e inteligentes, capazes de unir tecnologia, proximidade e confiança em uma mesma experiência.

Comme d’habitude ou My Way? O que seremos?

MARCIO PORT edited

COLUNA COLUNA PROPÓSITO EM MOVIMENTO

Você já deve ter ouvido a música “My Way”. Pois então, esses dias me veio à mente traçar um paralelo sobre essa música e o nosso cooperativismo. Importante saber que a origem dessa música é francesa e, fez grande sucesso na Europa, na voz de Claude François, em 1967. Mas, Paul Anka fez uma releitura da versão em francês, manteve a música e alterou sutilmente a letra para fazer brilhar na voz de Frank Sinatra e, a partir daí o mundo todo conheceu “My Way”, inclusive na voz de Elvis.

Segundo dados de streaming para cada 1 vez que a versão francesa tocou, 50 vezes foram tocadas na versão em inglês. Enquanto a primeira tocou dezenas de milhões de vezes, a segunda tocou bilhões de vezes. 

Mas o que isso tem a ver com o nosso cooperativismo? 

Bom, no meu paralelo vejo similaridade entre a música “Comme d’habitude” e o nosso cooperativismo. Pois em ambos encontramos originalidade, força, emoção, beleza e perfeição, contudo, em se tratando de alcance, penetração, capacidade de ser amplamente reconhecidos, ambos ficaram num espaço reduzido, diante do tamanho do seu potencial.

Assim como na música de Claude François, o cooperativismo está presente no dia a dia das pessoas de forma quase invisível (no café, no leite, na salada, na energia, no crédito, no transporte, na saúde…), mas é vivido “como de costume”, sem que as pessoas percebam a profundidade e a capacidade transformadora do modelo. 

Nosso modelo é resiliente e humano, mas por ser pouco compreendido, por vezes, acaba sendo visto como algo local ou setorial, sem o brilho e a grandiosidade que merece. Nosso ‘idioma’, com termos próprios muitas vezes usa uma linguagem técnica, burocrática e interna (“doutrina”, “sobras”, “cota-parte”, “ato cooperativo”). É como uma música linda cantada em um idioma que boa parte do mundo não entende.

Talvez precisemos de uma “releitura de Paul Anka” para atingir os outros 7 bilhões de pessoas no mundo e escalar como o sucesso de Sinatra. Não quero ser herege, mas, entendo que há grandes espaços para uma abordagem mais direta e assertiva, com base em uma profunda revisão do que somos e como podemos de fato ser percebidos. Não se trata de colocar a essência em ‘xeque’, pelo contrário, é sobre lapidar ela e fazê-la naturalmente transbordar a vista de quem a vê. Sabe quando você ouve o canto de um Bem-te-vi? Você não precisa necessariamente ver ele, mas você sabe que é ele, pois seu cérebro reconhece naturalmente o seu canto. É disso que estou falando!

Para que uma ideia se torne global, ela precisa de intérpretes de peso e uma marca forte. O cooperativismo precisa ocupar os palcos locais e globais com a mesma confiança de Sinatra no Madison Square Garden ou Elvis no International Hotel, mostrando que é um modelo de negócios moderno e competitivo, não apenas uma alternativa romântica. Veja que My Way não é sobre o que acontece com você, é sobre o que você faz acontecer. O cooperativismo precisa deixar de ser visto como “ajuda mútua por necessidade” para ser percebido como “autonomia por escolha”. É o “I did it my way” (Eu fiz do meu jeito), cantado como “We do it our way” (nós fazemos do nosso jeito), um jeito inteligente e coletivo. 

Da mesma forma, precisamos universalizar nosso discurso, evidenciando os efeitos positivos da “liberdade econômica e impacto social”, convertendo conceitos técnicos em um hino de empoderamento com propósito de vida e prosperidade coletiva.

Agora, é fundamental entender que embora nossa essência seja indissociada do nós. Não existe o ‘nós’ sem o ‘eu’. Portanto, é elementar focar no resultado individual dentro do objetivo coletivo. Assim como na música, onde o indivíduo se orgulha de sua trajetória, o cooperado deve saber e sentir que o sucesso da cooperativa é a prova da sua própria inteligência, autonomia e consciência.

E ainda, é vital recordar Darwin e nos adaptarmos (com maior velocidade) ao contexto cultural que se molda e remolda. “My Way” funcionou porque falava a língua da cultura da época. O cooperativismo precisa falar a língua da sustentabilidade (ESG), da economia compartilhada, do impacto local e da tecnologia para ressoar com as novas gerações.

Por fim, o cooperativismo é a melodia mais bonita no que se refere a construir um mundo mais justo, equitativo, produtivo e com prosperidade compartilhada, mas diante de seu gigantesco potencial podemos dizer que ainda está sendo cantado em um “palco de bairro”. Transformá-lo em “My Way”significa dar a ele a narrativa de vitória que o mundo está ansioso para ouvir.

O cooperativismo não é sobre “fazer como de costume”; é sobre provar para o mundo que nós fazemos de um jeito onde todos ganham! “E o nosso jeito, o jeito coop”.

*Por Silvio Giusti, Consultor sênior, palestrante e articulista em cooperativismo

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