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(Des)Pertencimento (fragmento 2) – Silvio Giusti é Consultor em Cooperativismo

MundoCoop POR MundoCoop
26 de setembro de 2024
ARTIGO
Silvio Giusti é Consultor em Cooperativismo

Silvio Giusti é Consultor em Cooperativismo

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Se estamos de acordo que o sentimento de pertencimento diz mais a respeito dos valores e expectativas da própria pessoa, do que sobre a organização, à qual ela está vinculada ou irá se vincular, então, o que pode ser feito pela cooperativa para provocar e potencializar esse sentimento?

Como descrito no artigo Pertencimento (fragmento 1), o genuíno pertencimento é um ativo de altíssimo valor na cooperativa, e a proporção dele (maior ou menor), dentro do quadro social, inegavelmente, será fator determinante em sua governança, resultados e sustentabilidade.

Porém, antes de avançar no que pode ser feito para elevar esse sentimento dentro da cooperativa, é relevante, ter ciência de algumas situações que podem levar ao ‘despertencimento’.

Sim, uma espécie de sensação de: “Isso já me pertenceu, mas não me pertence mais”. Algo como aquele sentimento, de que a cooperativa, está perdendo características essenciais que eram pontos-chaves de conexão para mim e, portanto, já não me representa mais.

Ou ainda, aquele cooperado que se apaixona e se sente pertencente ao ideal cooperativista, mas efetivamente se decepciona, pois na prática, esse ideal não se materializa no cotidiano da cooperativa. Ou por vezes, a própria dinâmica de funcionamento da cooperativa (intencional ou não), acaba afastando ou alijando do processo participativo, as pessoas que se sentiam pertencentes e, logo, há um esvaziamento do sentimento de pertencimento.

As motivações para o despertecimento geralmente causam grande frustração e fraturam a crença no cooperativismo, principalmente naqueles que um dia se viram representados, engajados, participantes defensores do protagonismo coletivo organizado.

Quero acreditar que as estratégias para elevar o pertencimento, também auxiliam as cooperativas a não produzirem razões para o despertencimento.

Talvez o ponto mais crucial de toda esta questão, seja a capacidade da cooperativa se apresentar de forma clara para os seus cooperados e para a sociedade, garantindo nesta mensagem, qual é o seu propósito, qual a sua proposta de geração de valor, qual seu diferencial competitivo. Que modelo de negócio é este, centrado nas pessoas, na prosperidade das famílias e no desenvolvimento sustentável das comunidades, como ele funciona e por que possui tanto poder de transformação.

Essa possivelmente seja a ação mais poderosa no sentido de despertar o sentimento de pertencimento, principalmente para os novos cooperados e para aqueles cooperados que ainda não se enxergaram como donos e não se identificaram ainda com a cooperativa. Quando a organização se mostra e apresenta a sua forma de atuação, seus valores e o seu objetivo e, esse conjunto se conecta com os valores e objetivos do indivíduo, fazendo sentido para ele, existe aí uma inegável força de atração.

Mas essa força de atração deverá ser experimentada no aspecto do princípio da verificação, ou seja, do aspecto da materialização desse conjunto de conexão entre as partes. Para isto, outro ponto básico, é a cooperativa ter eficiência operacional, entregando soluções compatíveis e inovadoras que atendam as expectativas dos cooperados, no sentido de alcançar êxito e materializar o propósito, com impactos socioeconomicamente positivos e sustentáveis que contemplarão o quadro social e a comunidade.

Neste ponto, vejo que muitas cooperativas pecam em não dedicar esforços e evidenciar todo o impacto positivo que produzem na comunidade em nome de seus cooperados. Afinal essa é a grande entrega e ápice da diferenciação de uma organização generativa para uma extrativa. O compromisso e a capacidade de transformação local que vá ao encontro do interesse dos cooperados e comunidade com participação democrática, prosperidade coletiva e desenvolvimento sustentável.

Em muitas oportunidades, enxergo cooperativas evidenciando tão somente seus produtos e serviços, até mesmo nos monitores internos da cooperativa apresentam a taxa de juros, o preço da soja, o câmbio do dia, a arroba do gado, um noticiário de jornal, mas não dão ênfase e apresentam o que de fato estão fazendo de diferente, de inovador e de importante naquela comunidade. Algo que quem veja diga: “Caramba! Que orgulho dessa cooperativa! Isso sou eu! Isso me representa!”

Não obstante a exposição, atração, eficiência operacional e materialização do propósito, estar atento ao relacionamento com o quadro social e às boas práticas de governança, em especial, canalizando energia para o melhor funcionamento das estruturas e dinâmicas de inclusão, sucessão e participação dos cooperados, também se mostram valorosas ações de estímulo ao pertencimento.

Além disso tudo, indeclinavelmente, promover a educação cooperativista e o despertar da consciência coletiva, por meio do 5º princípio, são fatores essenciais para que a cultura cooperativista e a expansão do discernimento cognitivo do quadro social e comunidade, sejam fatores de amalgamento do sentimento de pertencimento.

Por fim, renovar planos, metas, estruturas e objetivos, assim como, pactuar novos desafios e projetos, mantendo a serenidade sem perder a ousadia e, no caso das cooperativas, sem perder de vista sua identidade, cultura e o seu propósito, podem ser excelentes ações para revitalizar o pertencimento no quadro social.


*Por Silvio Giusti, Consultor em cooperativismo, palestrante e Consultor Sênior para a DGRV

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