Existem fios invisíveis ligando a sua manhã de hoje a uma decisão tomada do outro lado do mundo. Passo meus dias puxando esses fios. Sou Paula Abbas, futurista. Não no sentido de adivinhar o que vem, já que o mundo está cada vez mais imprevisível. Meu trabalho é ler os sinais que passam por nossa rotina sem serem notados, mas que estão transformando a forma como as pessoas se relacionam, compram e escolhem seus governantes, e os sinais de vejo agora são desconcertantes.
Esta coluna existe para puxarmos juntos os fios do futuro do cooperativismo, firmando o chão nos sinais do presente. A soberania alimentar deixou de ser tema de safra para virar geopolítica. Num mundo que disputa comida e recursos, garantir que o Brasil produza com autonomia é causa nacional, e o agro cooperativo é seu guardião. A água virou recurso tão estratégico que aparece entre os maiores riscos globais de 2026, listada como arma. E há o sinal mais silencioso de todos: num tempo de desinformação fabricada por máquinas e de confiança em frangalhos, a cooperativa é uma âncora de verdade local. Ser a instituição em que a comunidade confia deixou de ser virtude. Virou poder.
A lei que rege as cooperativas nasceu nos anos 1970, antes da internet e da inteligência artificial, e precisa ser atualizada sem perder a alma do ato cooperativo. A Reforma Tributária redesenhou todos os impostos do país e, embora tenha reconhecido a natureza singular das cooperativas, deixou em aberto a pergunta que vai decidir tudo nos próximos anos, ou seja, o que conta como ato cooperativo e o que conta como operação de mercado. E por fim, o crédito: o cooperativismo financeiro passou de R$ 1 trilhão em ativos e chega onde nenhum banco chega, e proteger esse alcance é proteger a inclusão de milhões.
Firmado o chão, desejo apontar como levantamos os olhos. Porque há sinais chegando que vão definir a próxima década, e o cooperativismo tem um papel em cada um deles. Enquanto o mundo entra em pânico procurando confiança, coordenação e pertencimento, o cooperativismo carrega essas três coisas no DNA há mais de um século. Não somos um setor da economia. Somos uma arquitetura de futuro.
E 2026 nos cobra isso em outra frente. É ano de eleição, e o cooperativismo tem uma tradição preciosa: atua pela causa, não pelo candidato, porque sua força sempre foi suprapartidária, feita de muitas vozes ao mesmo tempo. O setor acaba de lançar sua agenda estratégica 2027/30 para o Brasil, realizando o trabalho de longo prazo ser o setor que propõe futuro, levando aos candidatos não uma lista de demandas, mas uma visão de país, colocando luz em temas de governança da inteligência artificial, de transição climática, de economia da longevidade de um país que envelhece depressa.
É disso que trata esta coluna: enxergar os fios antes que virem nó. Os sinais já estão aqui. A pergunta é se vamos lê-los a tempo de decidir o próximo passo, juntos.
Vamos puxar alguns fios?
*Paula Abbas é futurista, design thinker e consultora de posicionamento de marcas. Fundadora da Pleita Branding Político e da ThinkRoom. Atualmente escreve o livro Fios Invisíveis, sobre os vínculos que conectam pessoas, acontecimentos e futuros.

Coluna exclusiva publicada na edição 133 da Revista MundoCoop






