Em média, 33% das tarefas de nível inicial dentro das empresas já são executadas por inteligência artificial, chegando a 39% no Reino Unido. É o que aponta pesquisa da Cognizant e da Pearson, conduzida pela Wakefield Research com 750 líderes de RH nos Estados Unidos, Reino Unido e Índia.
O dado parece técnico, mas tem uma consequência direta sobre quem vai liderar as empresas daqui a alguns anos. Essas tarefas repetitivas, por muito tempo, foram o espaço onde profissionais erravam, aprendiam e conquistavam, aos poucos, o direito de decidir por outras pessoas.
Com a IA assumindo essa camada do trabalho, o caminho tradicional até a liderança perdeu os primeiros degraus, e a maioria das empresas ainda não desenhou um substituto.
A escada que sumiu
O levantamento mostra um contraste que resume o momento: 96% dos líderes de RH esperam que cargos de nível inicial evoluam para posições de supervisão de IA nos próximos cinco anos, mas 46% ainda não oferecem treinamento de capacitação específico para isso. A empresa espera que o funcionário chegue a um lugar novo, sem indicar o caminho.
Historicamente, a progressão de carreira dependia de acúmulo técnico: fazer, errar, refazer, até ganhar autoridade para liderar. Com a automação assumindo essa etapa, o que antes era aprendido na prática precisa agora ser ensinado de forma deliberada, algo que a maioria das estruturas de desenvolvimento de liderança ainda não contempla.
O gerente de nível médio virou peça central, sem preparo extra
A pesquisa identifica os gestores de nível médio como o elo mais sensível dessa transição. 95% dos líderes de RH afirmam que esses gestores são cruciais para garantir que a IA seja usada corretamente no dia a dia, e 92% dizem que eles também são fundamentais para redesenhar funções à medida que a tecnologia muda o trabalho.
O problema é que sentir a pressão não é o mesmo que estar preparado para ela. São esses gestores, e não apenas o C-level, que respondem por decidir como a IA entra na rotina de suas equipes, geralmente sem terem passado por qualquer atualização estruturada para esse papel.
O que passa a valer mais quando a expertise técnica se torna commodity
Quando a IA assume parte da execução técnica, a credibilidade de quem lidera precisa vir de outro lugar. 97% dos líderes de RH concordam que habilidades centradas no ser humano importam mais do que nunca na era da IA.
O levantamento aponta outra mudança de critério: 64% dizem valorizar mais a capacidade de identificar problemas novos do que a de resolver problemas já conhecidos, e 67% afirmam valorizar formações interdisciplinares, como as de humanas, mais do que valorizavam antes.
Julgamento em contexto, leitura de cenário e capacidade de alinhar pessoas em torno de um objetivo comum deixam de ser diferenciais e passam a ser pré-requisito.
Redesenhar o cargo não é o mesmo que preparar quem vai ocupá-lo
Mesmo diante desse cenário, 94% dos líderes de RH dizem que pretendem redesenhar funções para refletir como a IA muda o trabalho no dia a dia. Redesenhar a descrição de um cargo, porém, não equivale a redesenhar a trajetória de quem vai se desenvolver até ele.
É exatamente nesse intervalo, entre a intenção declarada e a formação oferecida, que a maioria das empresas ainda patina.
Fonte: Exame












