Charles Gide (1847–1932), economista francês de grande influência intelectual, figura entre os mais importantes pensadores da história do cooperativismo mundial. Atuando no final do século XIX e início do século XX, Gide teve papel decisivo na formulação de uma compreensão moderna das cooperativas como instrumentos de justiça social, solidariedade econômica e emancipação dos trabalhadores.
Mais do que um teórico, Gide foi um intelectual público profundamente engajado nos debates econômicos e sociais de seu tempo. Professor universitário, conferencista e articulador do movimento cooperativista, contribuiu para elevar a cooperação do plano das experiências isoladas para o campo da reflexão econômica sistemática. Sua atuação em movimentos como a Escola de Nîmes consolidou uma visão de cooperativismo que ultrapassava o âmbito local e nacional, influenciando o desenvolvimento do movimento cooperativo em escala internacional — influência que permanece atual.
A cooperação como terceira via econômica
Charles Gide é amplamente reconhecido por conceber o cooperativismo como uma alternativa sistêmica tanto ao capitalismo liberal quanto ao socialismo estatizante. Em um contexto marcado pela rápida industrialização, pela concentração de capital e pelo agravamento das desigualdades sociais, Gide entendia que a economia não precisava se limitar à dicotomia entre mercado desregulado e controle estatal centralizado.
Para ele, as cooperativas representavam uma “terceira via”, capaz de promover transformações profundas na organização econômica sem recorrer à expropriação violenta nem à supressão da iniciativa individual. Em obras como Les Sociétés Coopératives de Consommation e La coopération. Conférences de propagande, Gide defendeu que as cooperativas de consumo constituíam a forma mais avançada de organização cooperativa. Ao organizar coletivamente o consumo, os trabalhadores poderiam reduzir assimetrias de poder, disciplinar o mercado e conquistar maior autonomia econômica e social.
Essa visão atribuía ao consumidor associado um papel central na dinâmica econômica, deslocando o foco do capital para as pessoas organizadas coletivamente.
Solidariedade, excedente e justiça social
A solidariedade ocupava posição central no pensamento de Charles Gide. Para ele, a economia deveria estar a serviço das necessidades humanas e do bem-estar coletivo, e não orientada exclusivamente pela lógica da maximização do lucro. Nesse sentido, Gide foi um crítico consistente do lucro capitalista entendido como apropriação privada do resultado do trabalho coletivo.
Nas cooperativas, defendia que o excedente econômico não deveria ser apropriado por investidores externos, mas distribuído de forma equitativa entre os membros ou reinvestido em benefício da coletividade. Essa concepção não negava a eficiência econômica, mas redefinia seus objetivos: produzir, distribuir e consumir de forma socialmente justa.
A cooperação, portanto, não era apenas um arranjo econômico alternativo, mas também uma escola prática de moral social, justiça distributiva e responsabilidade coletiva. Ao participar da cooperativa, o indivíduo não apenas atendia às suas necessidades materiais, mas aprendia a agir economicamente de forma solidária.
A Escola de Nîmes: cooperação como projeto emancipador
A chamada Escola de Nîmes não foi uma instituição formal de ensino, mas um movimento cooperativo, intelectual e militante que se desenvolveu principalmente no sul da França, a partir das últimas décadas do século XIX. Articulada por líderes como Auguste Fabre, Édouard de Boyve, Charles Gide e o pastor protestante Tommy Fallot, a Escola de Nîmes tornou-se um dos principais polos de reflexão e difusão do cooperativismo francês.
O movimento defendia a cooperação — especialmente a cooperação de consumo — como instrumento de emancipação econômica e social dos trabalhadores. Para seus integrantes, a cooperação não deveria ser vista apenas como uma solução pontual para problemas de abastecimento ou preços, mas como base para uma reorganização mais ampla da economia.
Entre seus principais objetivos estava a superação do regime do lucro sem recorrer ao estatismo, promovendo uma economia fundada na solidariedade, na autogestão e na democracia econômica. As cooperativas eram concebidas como espaços de aprendizado coletivo, nos quais os membros desenvolviam competências de gestão, participação democrática e controle social da atividade econômica.
Ação organizativa e influência institucional
Além de sua produção teórica, a Escola de Nîmes teve papel relevante na organização prática do movimento cooperativo francês. Em 1885, seus membros organizaram o primeiro congresso cooperativo em Paris, contribuindo para a articulação nacional das cooperativas. No ano seguinte, lançaram o jornal mensal L’Émancipation, que se tornou um importante veículo de difusão de ideias sobre economia social, cooperação e reformas econômicas.
Em 1888, foi criada em Nîmes a Associação Protestante para o Estudo Prático das Questões Sociais, presidida por Tommy Fallot e tendo Charles Gide como vice-presidente. A associação tinha como foco a aplicação concreta dos princípios cooperativos, a formação de lideranças e a resolução de problemas práticos enfrentados pelas cooperativas, como a gestão interna e os conflitos com o comércio privado.
A criação da Aliança Cooperativa Internacional (ACI) e a influência de Charles Gide
A dimensão internacional do pensamento de Charles Gide encontrou expressão institucional na criação da Aliança Cooperativa Internacional (ACI), fundada em 1895, em Londres, durante o primeiro Congresso Cooperativo Internacional.
A ACI surgiu da necessidade de articular, em escala global, um movimento cooperativo que já ultrapassava fronteiras nacionais, mas carecia de princípios comuns e de um espaço permanente de diálogo. Embora a fundação da ACI tenha sido um esforço coletivo, com forte presença de lideranças britânicas, Charles Gide figurou entre seus fundadores e exerceu influência decisiva no plano doutrinário. As ideias desenvolvidas por Gide e pela Escola de Nîmes — especialmente a centralidade da cooperação de consumo, a gestão democrática, a educação cooperativa e a solidariedade como fundamento econômico — contribuíram para moldar o entendimento da cooperação como movimento internacional organizado.
A ACI consolidou, ao longo do tempo, princípios que dialogam diretamente com essa matriz intelectual, permitindo que a cooperação deixasse de ser um conjunto de experiências nacionais para se afirmar como um projeto econômico e social de alcance mundial.
Legado e atualidade
Influenciada por pensadores como Louis Blanc, Émile Durkheim e Léon Bourgeois, a Escola de Nîmes consolidou a ideia da solidariedade como princípio estruturante da organização econômica. Seu legado ultrapassa amplamente o contexto histórico francês, tendo influenciado de forma duradoura o cooperativismo internacional e a própria formulação da economia social.
Ao conceber a cooperação como instrumento de democracia econômica, emancipação social e justiça distributiva, Charles Gide ajudou a lançar as bases de um movimento que permanece atual. Em contextos marcados por crises recorrentes, concentração de renda e questionamentos sobre os limites dos modelos econômicos tradicionais, suas ideias seguem oferecendo referências relevantes para a construção de formas mais humanas, participativas e sustentáveis de organização da economia.
Elaborado pelo Portal do Cooperativismo Financeiro












