A digitalização do agronegócio avançou a passos largos na última década. A conectividade, antes restrita, já alcança 98% das propriedades rurais brasileiras, segundo a 9ª Pesquisa ABMRA – Hábitos do Produtor Rural. O WhatsApp virou o principal canal de consulta para decisões de negócio, usado por 96% dos produtores. Plataformas, sensores, aplicativos, telemetria e sistemas de gestão se multiplicaram.

Mas, paradoxalmente, nunca foi tão difícil transformar dados em decisões ágeis e integradas. A superabundância de ferramentas, cada uma com sua lógica e formato, abriu um novo desafio no campo: a fragmentação digital.
Segundo Mayra Theis, líder de Agrobusiness da PwC Brasil, esse fenômeno já afeta propriedades de todos os portes, tornando o dia a dia mais complexo e a tomada de decisão mais lenta. E, para as cooperativas, o tema se tornou estratégico: integrar informações, orientar o produtor e dar sentido aos dados é, hoje, tão relevante quanto assistência técnica e acesso a crédito.
Quando o excesso de ferramentas se torna um obstáculo
“A fragmentação digital ocorre quando diferentes soluções tecnológicas usadas na propriedade rural não se comunicam entre si. Cada plataforma coleta dados isolados, sem integração, criando ‘silos de informação’. Pela experiência com produtores rurais através do nosso hub PwC Agtech Innovation, essa fragmentação aparece tanto em pequenas propriedades quanto em grandes operações, com 5 a 15 ferramentas convivendo sem integração consistente”, explica Mayra.
O cenário atual é resultado direto do boom de soluções especializadas – do solo à logística, da irrigação à rastreabilidade – que chegaram ao mercado antes de existirem padrões consolidados de interoperabilidade. O resultado é visível: plataformas sobrepostas, dados duplicados, informações incompletas e, muitas vezes, decisões tomadas sem a visão do todo.
O impacto direto na eficiência da fazenda
Sem integração, a operação perde fluidez. Para Mayra, a consequência é clara. “Quando os sistemas não conversam, o produtor perde a visão holística da operação. Isso atrasa decisões críticas, como ajustes de irrigação ou aplicação de insumos, e pode gerar custos adicionais”. Além de dificultar análises preditivas, o retrabalho para consolidar dados consome tempo e aumenta o risco de erros operacionais.
Nas cooperativas, esse desafio também se reflete no atendimento. Alex De Marco, gerente de assistência técnica da Cooperalfa, observa que o uso ainda insuficiente do potencial dos dados é o grande problema. “Não existe excesso de informações, o que existe é grande disponibilidade de ferramentas que precisam ser melhor aproveitadas para usar as informações disponíveis de forma mais assertiva no campo.”

Para ele, quanto mais dados, maior a capacidade de orientar o produtor, mas desde que sejam organizados de forma estratégica.
Cooperativas como guardiãs da integração
Na prática, as cooperativas têm assumido protagonismo na organização dos dados. Na Cooperalfa, por exemplo, a integração parte das ferramentas corporativas. “A Cooperalfa faz a integração com base nas plataformas de gestão utilizadas como CRM (…) e utiliza o Business Intelligence (BI) para auxiliar na tomada de decisões estratégicas da cooperativa baseadas em dados”, detalha De Marco.
Mas isso não significa que todos os dados já estejam integrados ao alcance do produtor. Como explica Gilberto Fontana, diretor administrativo e gerente de TI. “A cooperativa não dispõe de uma centralização de informações a disposição do produtor. Nós centralizamos as informações relativas ao produtor na cooperativa”.
Hoje, o CRM e o BI funcionam como hubs internos, fundamentais para orientar o produtor, mesmo que o acesso direto ainda não esteja totalmente disponível.
Para o associado, o principal canal é o aplicativo Cooperalfa, que reúne dados operacionais relevantes. “O aplicativo Cooperalfa permite ao produtor acessar cotações agrícolas, consultar relatórios financeiros, venda da produção, notícias e muito mais”, acrescenta Fontana.
Quando o uso de dados mostra resultados concretos
O desafio da fragmentação digital não se resume à organização. Ele impacta diretamente a produtividade. Um dos exemplos citados pela Cooperalfa é o FERTIALFA, programa de agricultura de precisão criado em 2007. Segundo Gilberto Fontana, “nós fazemos o levantamento de dados no campo, com base em análises, e a partir disso, o produtor usa dessas informações para tomada de decisão técnica/estratégica na propriedade dele, como por exemplo usando menos fertilizantes em determinadas áreas”.
A iniciativa mostra que, quando os dados são coletados, analisados e aplicados de forma correta, o resultado é aumento de produtividade, redução de custos e menor desperdício.

Caminhos para 2026: integração, governança e mudança cultural
Para transformar dados em decisões realmente úteis, é preciso mais que tecnologia: é necessária uma mudança de cultura, gestão e comportamento.
“É preciso avançar em todos os aspectos, visando a integração para tomada de decisão baseada em dados. O recado principal é integrar buscando resultados, mapear as decisões críticas, eliminar reentradas de dados, reduzir o número de telas e colocar a recomendação certa na hora certa”, resume Mayra Theis sobre os pilares do futuro próximo:
Essa visão dialoga com um movimento maior que atravessa o setor: cooperativas, pesquisadores, empresas e produtores precisam atuar em rede, buscando interoperabilidade, conectividade resiliente, governança digital e capacitação contínua.
Do excesso de dados ao excesso de oportunidades
A fragmentação digital não é apenas um problema, e muito menos um sem solução, é sinal de um campo que se modernizou rápido, talvez rápido demais. O desafio agora é amadurecer.
E nesse caminho, as cooperativas têm papel decisivo: transformar informação dispersa em orientação clara; conectar o produtor às tecnologias que realmente importam; e garantir que o dado, mais do que coletado, seja utilizado.
Porque, no fim, a agricultura que vencerá a próxima década não será a mais digital, será a mais integrada.
Por Andrezza Hernandes – Redação MundoCoop

Matéria exclusiva publicada na edição 127 da Revista MundoCoop












