A logística por plataformas pode ser cooperativa? O que a experiência da Espanha revela

A expansão das plataformas digitais de entrega transformou o setor de logística urbana em diversos países. Na Espanha, antes da pandemia, empresas como Deliveroo, Glovo e Uber Eats cresceram rapidamente em grandes cidades, operando com entregadores classificados como autônomos, remuneração por entrega e ausência de garantias trabalhistas. Os ganhos líquidos eram baixos, os custos recaíam sobre os trabalhadores e não havia previsibilidade de renda ou proteção social.

Com a chegada da pandemia, tornou-se ainda mais evidente que esse modelo era insustentável. Em Granada, um grupo de entregadores experientes, que já atuava para grandes redes de alimentação, passou a buscar uma alternativa que garantisse estabilidade, legalidade e condições de trabalho mais justas. Dessa inquietação surgiu a Givit, uma cooperativa de plataforma voltada à logística de última milha.

Atualmente, a Givit reúne mais de 900 cooperados, realiza centenas de milhares de entregas por mês e movimenta milhões de euros em receita anual. O crescimento foi gradual e baseado em experimentação, com apoio de outra cooperativa especializada em gestão, governança, tecnologia e análise de dados, o que permitiu estruturar o negócio sem depender das plataformas tradicionais.

Um dos diferenciais do modelo é o controle da tecnologia. A cooperativa desenvolveu sua própria ferramenta digital para organização de rotas, turnos e dados operacionais, garantindo que as informações estratégicas permaneçam sob controle coletivo e possam, inclusive, ser compartilhadas com outras cooperativas.

No campo trabalhista, a mudança é significativa. Em vez de pagamento por entrega, os cooperados recebem salário por hora, acima da média do setor, com acesso a benefícios como contribuição previdenciária, licença remunerada e equipamentos de segurança. As escalas são organizadas de acordo com a demanda real, trazendo previsibilidade e melhor equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

A governança segue os princípios cooperativistas, com decisões estratégicas tomadas de forma democrática e participação direta dos trabalhadores na gestão. Após a aprovação da chamada “Lei dos riders”, que obrigou plataformas a reconhecer vínculos empregatícios, a Givit passou também a operar em parceria com empresas tradicionais, mantendo autonomia sobre a organização do trabalho e a remuneração.

A experiência espanhola mostra que o cooperativismo de plataforma pode se consolidar como uma alternativa viável à lógica predominante da economia digital. Mais do que um conceito teórico, trata-se de um modelo capaz de combinar eficiência operacional, uso estratégico da tecnologia e melhores condições de trabalho, apontando novos caminhos para o futuro da logística urbana.


Fonte: Coop News (traduzido e adaptado)

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