Aos com mais de sessenta

Aos com mais de sessenta

Acabo de receber de meu neto Gabriel, 10 anos, a relação de 21 filmes de super-heróis para, como ele disse, assistir na quarentena. Agradeci. E ele continuou me informando que tem em seu quarto uma estante com 101 histórias em quadrinhos, em cores, os gibis.  Quando ele falou a palavra “gibi”, minha mente recuou no tempo e estacionou num passado longínquo, época em que eu era aficionado por gibis, como também amigos da minha infância e adolescência. É óbvio que nossos pais não estimulavam a leitura de histórias em quadrinhos; exigiam que estudássemos. Em certos momentos, escondidos, nos deliciávamos com enredos bem bolados envolvendo vários heróis. Recordo dos gibis de Batman e Robin, Super Homem, Capitão Marvel, Tocha Humana e Centelha, Príncipe Submarino, Zorro, Fantasma e Tarzan. Minha mente rebobinada recorda que o bem sempre vencia o mal, e a torcida era grande para que isto acontecesse. Fico imaginando, agora, a criatividade dos autores inventando enredos de forma sequencial, e a habilidade dos desenhistas para reproduzir em formas o que os autores descreviam. Certos pais liam gibis escondidos.

A evolução desses heróis ficou evidente quando muitos deles foram canonizados em filmes e, atualmente, em vídeos que, na TV e na internet, invadem o nosso dia a dia. Quem não viu e não se recorda dos filmes de Tarzan e do Zorro? Quantas versões em preto e branco e em cores foram produzidas? Quantas ainda podem ser vistas em várias plataformas digitais? Na última década, os super-heróis ressurgiram nos gibis, no cinema, na TV e na internet. Com produções riquíssimas e valorizando o uso da tecnologia, eles invadem nossas casas, atingindo em cheio crianças e, porque não, adultos.  Desfilam garbosos aos nossos olhos fazendo o tempo passar. Quem está mais na moda é a Mulher Maravilha, cujo filme datado de 2017 passa diariamente nas telas da TV, mostrando a beleza da heroína. Vale a pena assistir. Seu outro filme intitulado Mulher Maravilha 1984 está nas telas dos cinemas e da TVs. No filme Os Vingadores (Avengers) desfilam Batman, Super Homem, Capitão América, The Flush, Incrível Hulk, Viúva Negra, Homem de Ferro e outros.

Ao comentar com o meu neto o que estou escrevendo, foi logo me dizendo:

– Vô, tem mais super heróis: Thor, Pantera Negra, Homem Formiga, Aquaman, Wolverine, Lanterna Verde, Homem de Ferro,…

– Gabriel, chega – interrompi. É demais!

Mas ele continuou acrescentando que os super heróis estão em filmes, vídeos, histórias em quadrinhos, bonecos de plástico, banners, material para ornamentar aniversário de crianças…. chega. É muita coisa para quem tem mais de sessenta.

Encerrada nossa conversa, comecei a cantarolar o bolero La Barca, que o compositor mexicano Roberto Cantoral criou e imortalizou em 1950. Fiquei pensando por quê. Aí, parei, refleti e lembrei-me que na noite anterior eu ouvira vários boleros como El Reloj, Perfidia, Besame mucho, Quiças, e outros tão famosos quanto. Aplaudi as vozes do chileno Lucho Gatica, Trio Los Panchos, e, principalmente, Gregório Barrios, que se apresentou diversas vezes nos clubes Lira e Doze, em Florianópolis. Num certo momento, pensei: saudosismo de idoso; depois, me recompus lembrando a frase a “saudade é a memória do coração”, cujo autor desconheço. E fui atrás de mais boleros. Achei-os na voz inigualável de Nat King Cole cantando em espanhol. Um grande sucesso na época. Agustin Lara, compositor de grande talento, elevou a música mexicana compondo boleros inesquecíveis, mas foi imortalizado quando deu ao mundo a sua canção mais famosa, Granada, interpretada por vários artistas. Atualmente, o cantor mexicano Luis Miguel interpreta com grande competência os mais famosos boleros. Recomendo. Dançar bolero não era para qualquer um. Aqueles que não conseguiam, se limitavam a enrolar os passos no centro do salão, sem dele sair. E tentavam o rosto colado, nem sempre conseguindo. Grande frustação. Ritmo romântico, embalou paixões; deu noivados e casamentos.  Com o passar do tempo, a batida do bolero foi sendo estilizada, valendo-se da tecnologia, o que aceito como forma de se adaptar aos dias de hoje. Novos instrumentos de percussão foram surgindo para aperfeiçoar o ritmo, mas, desculpem os mais jovens, os “dois pausinhos” e o bongô, marcando a batida, são insuperáveis. Pena que, com a modernidade, com novos ritmos surgindo, os boleros foram sendo passados para trás. Mas, acredito que os do meu tempo, os com mais de sessenta, não trocariam um bom bolero pelas pauleiras ou “ bate estacas” que aí estão.


Murillo Ronald Capella é Médico e Professor universitário

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