Lembranças fazem bem

Lembranças fazem bem

Lembrar do passado e das coisas que hoje nem mais existem faz parte da nossa memória afetiva, que deve ser cultivada com alegria. Sentir saudade nem sempre é motivo de tristeza e pode ser um grande privilégio que ajuda a contar a história de vida de cada um

“No meu tempo as coisas eram diferentes”. A frase é um dos maiores clássicos da humanidade e inevitavelmente faz parte das relações entre gerações do mundo todo. O que mudou é a velocidade das transformações, que tornam ainda mais presente o sentimento de que “nada mais é como antes” e, em alguns casos, “antigamente era muito melhor”. Longe de ser um problema, a nossa memória e as lembranças de acontecimentos devem ser vistas como conquistas. O passado faz parte da trajetória de cada um, o que inclui o registro de fatos, objetos, pessoas, momentos e até mesmo cheiros e sabores.         

“Fisicamente, habitamos um espaço, mas sentimentalmente somos habitados por uma memória”. A frase é do escritor José Saramago e é citada pela psicóloga clínica com especialização em Gerontologia, Carmen Cordeiro da Silva, idealizadora do Canal YouTube “Velhices sem Tabu”. Ele destaca que os seres humanos são constituídos também por suas lembranças. “A memória é responsável pela simples movimentação do nosso corpo, comportamento, interação com o mundo e as pessoas, afeto, criatividade etc. Por isso recorremos às lembranças em qualquer fase da vida”.

Nesse processo, é indispensável saber que o cérebro é a parte mais importante do nosso corpo e proporciona atividades cognitivas de acordo com a idade, acompanhando o envelhecimento físico e mental. Porém, a psicóloga ressalta que envelhecer acontece de maneira particular. Ou seja, cada pessoa viverá a passagem do tempo de maneira própria e diferente, considerando fatores psicológicos, biológicos, culturais e sociais. “Da mesma forma, o sentimento de saudade será vivenciado também diferentemente para cada pessoa, com reflexos na autonomia, nas escolhas e nos desejos, entre outras coisas. Por isso é essencial estimular o acesso às lembranças boas, que geram sensações prazerosas. Assim, ao relembrar de alguma coisa positiva, a pessoa revive a experiência e novamente sente aquela emoção. Isso acende uma luz, que a faz perceber possibilidades e novos caminhos para seguir e até reconstruir sua história”.

Legados e aprendizados

Para o psicólogo e terapeuta cognitivo comportamental Felipe Rosenberg, as lembranças marcam as pessoas, transformam seus mundos, o mundo daqueles que estão ao seu redor e das futuras gerações. “Como um fotógrafo que registra o momento para posteridade, as lembranças são nosso maior tesouro e ninguém pode levá-las de nós. Estão ligadas à sabedoria que adquirimos na vida. Assim, quanto mais envelhecemos, elas se tornam ainda mais importantes, capacitando-nos a lidar com diferentes situações. A lembrança é o maior triunfo e nosso legado. Com ela vêm histórias, momentos, sabedorias, cantigas, reflexões, orientações e aprendizados a serem repassados”.

De acordo com o especialista, que também é mediador de conflitos, palestrante e youtuber, de maneira geral as pessoas mais experientes estão repletas de lembranças que devem ser valorizadas por familiares e quem mais estiver à sua volta. Filhos e netos podem e devem reservar um tempo para esse relacionamento. “Quem nunca gostou de ouvir as histórias deles antes de dormir ou numa viagem? Eles têm muito a contribuir, apesar de, em muitos sentidos, a sociedade de hoje não valorizar suas experiências, dificultando esse importante compartilhamento de vivências”. 

Claro, cultivar lembranças não significa viver do passado ou transformar as memórias em permanente melancolia. Nesse sentido, mais uma vez a família e o respeito são essenciais para os mais idosos. “Vamos enchê-los de amor, carinho, valorização, fazer com que se sintam úteis e ativos. E assim, despertá-los para vida, para o lado bom das coisas, da experiência e do presente”.


Por Quanta Previdência

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