Tempo de refletir sobre a longevidade

Tempo de refletir sobre a longevidade

Ao refletir sobre os impactos da pandemia do novo coronavírus, penso que os mais prejudicados pela Covid-19 foram exatamente as crianças e os idosos, por questões que envolvem desde a saúde física até a emocional. Enquanto os mais velhos têm que driblar os riscos do vírus no corpo, os pequenos têm que enfrentar os perigos da mente, num regime de distanciamento social que lhes tolheu o convívio com amigos e com a escola. É claro que durante muitos anos a humanidade vai estudar os efeitos que a pandemia deixou, mas não resta dúvida de que essas duas faixas etárias terão muito a contar sobre um fato inusitado que desvendou ameaças maiores que a própria doença.

Desde o início da pandemia, os idosos foram considerados os mais vulneráveis à Covid-19, pela redução de resposta imunológica do organismo mais envelhecido e pelas doenças crônicas que muitos adquiriram no decorrer de suas jornadas. Muitas foram, então, as preocupações no sentido de proteger os maiores de 60 anos, com a indicação de isolamento desde os primeiros dias da crise sanitária do novo coronavírus, afastando os mais velhos inclusive de familiares e de suas atividades.

Diante desse cenário, tornou-se inevitável refletir sobre a conquista da longevidade, que nas últimas duas décadas ampliou em pelo menos mais 10 anos a expectativa de vida, constituindo-se numa das maiores vitórias da humanidade no cuidado com a saúde. Fruto especialmente da união entre a medicina e a tecnologia, a longevidade gerou incontáveis avanços, que retardaram o significado do envelhecimento, fazendo homens e mulheres com mais de 60, 70, 80 e 90 anos capazes de realizar projetos e sonhos, vivendo em plenitude e dando exemplos antes inimagináveis de superação.

Foi assim que os chamados “novos velhos” e também os “maduros” reescreveram a história e deixaram de ficar em casa esperando a aposentadoria chegar. Ao invés disso, muitos seguem as suas atividades profissionais e produtivas, são economicamente ativos, transformam costumes, mantêm-se participativos e desempenham papéis de protagonistas na família e na sociedade. São também consumidores desejados, movimentando e ressignificando o mercado por onde passam.

Portanto, é inquestionável que um novo desafio deve somar-se ao enfrentamento da pandemia: não deixar que se perca a evolução trazida pela longevidade. É vital impedir que a figura da fragilidade dos mais velhos volte à cena, que desfaça a imagem de força e capacidade alcançada por aqueles que chegaram a terceira idade ou mais. A união de todos – inclusive das nações do mundo – deve priorizar também para que, ao final desse momento tão difícil, possamos resgatar os ganhos da vida longeva de qualidade, apagando os rótulos de vulnerabilidade e grupo de risco. Que junto à vacina para vencer a Covid-19, possamos também imunizar contra o preconceito aos idosos. Que seja esse mais um remédio a ser prescrito, sem contraindicações.


Euclides Reis Quaresma, Médico e Diretor Superintendente da Quanta Previdência

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *