Especial Dia Internacional do Cooperativismo · 4 jul 2026
MundoCoop
Dia Internacional do Cooperativismo — Cooperativas por um mundo pacífico — 4 de julho 2026

Especial MundoCoop · CoopsDay 2026

Personalidades do setor assinam artigos especiais neste Dia Internacional do Cooperativismo

Lideranças do cooperativismo brasileiro assinam artigos exclusivos para a MundoCoop neste Dia Internacional do Cooperativismo — cada uma a seu modo, sobre o movimento que coloca as pessoas no centro.

Tema 2026 Cooperativas por um mundo pacífico
Assinam esta edição
Vanir ZanattaMárcio PortJoão SpenthofRemaclo Fischer JuniorDavid Maia D'OliveiraLuis Cláudio Silva
06artigos
especiais

A palavra de quem constrói o setor

Neste 4 de julho, reunimos quem vive o cooperativismo por dentro — da saúde ao crédito, do interior às grandes decisões.

Retrato de Vanir Zanatta OCESC · Santa Catarina
Artigo 01 / 06 · O tema de 2026

Cooperativas por um mundo pacífico

No primeiro sábado de julho, o mundo cooperativista celebra uma de suas datas mais emblemáticas. Em 4 de julho de 2026, o Dia Internacional do Cooperativismo chega à sua 104ª comemoração sob um tema de rara oportunidade histórica: “Cooperativas por um mundo pacífico”. A formulação escolhida pela Aliança Cooperativa Internacional, em sintonia com os organismos multilaterais que reconhecem a relevância desse modelo socioeconômico, não poderia ser mais atual. Em um tempo marcado por conflitos, desigualdades persistentes, insegurança alimentar, tensões econômicas e fragilização dos vínculos comunitários, o cooperativismo reafirma sua vocação original: aproximar pessoas, organizar esforços, distribuir oportunidades e transformar cooperação em desenvolvimento.

Santa Catarina abriga uma das experiências cooperativistas mais vigorosas do Brasil. Mais de 5 milhões de catarinenses estão vinculados, direta ou indiretamente, a cooperativas distribuídas nos ramos agropecuário, crédito, saúde, transporte, infraestrutura, consumo e trabalho, produção de bens e serviços. Trata-se da maior taxa de adesão ao cooperativismo no País, expressão concreta de uma cultura econômica baseada na organização, no trabalho, na poupança, na confiança e na participação. Em muitos municípios, a presença cooperativa eleva indicadores sociais, amplia renda, fixa famílias em suas comunidades, fortalece cadeias produtivas e melhora a qualidade de vida.

Em todos esses ramos, há uma mesma ideia-força: a cooperação converte fragilidades individuais em potência coletiva. O cooperado não é mero cliente, usuário ou beneficiário. É associado, participante, corresponsável e protagonista. Essa natureza distingue a cooperativa de outros modelos econômicos. Ao mesmo tempo em que compete no mercado, a cooperativa preserva raízes comunitárias. Ao mesmo tempo em que busca eficiência, mantém compromisso com pessoas. Ao mesmo tempo em que estimula o esforço individual, distribui resultados de acordo com a participação de cada um.

Por isso, a reflexão proposta pela 104ª celebração do Dia Internacional do Cooperativismo ultrapassa a comemoração protocolar. Ela convida governos, instituições, lideranças empresariais, trabalhadores, produtores e cidadãos a reconhecerem que muitos dos grandes desafios contemporâneos encontram no cooperativismo um caminho viável, testado e socialmente legítimo. A fome, a exclusão financeira, a precariedade de serviços, o isolamento de comunidades, a concentração de oportunidades e a fragilidade das economias locais podem ser enfrentados com mais organização social, mais associativismo produtivo e mais cooperação.

O tema “Cooperativas por um mundo pacífico” recorda que a paz se constrói também pela economia. Onde há trabalho digno, renda, pertencimento, segurança alimentar, acesso a crédito, saúde, energia, transporte e oportunidades, há menos espaço para rupturas sociais. Onde pessoas se reúnem livremente para solucionar problemas comuns, há mais confiança. Onde o resultado econômico retorna à comunidade, há mais equilíbrio. Onde a prosperidade não exclui, mas incorpora, há verdadeira civilização.

Neste Dia Internacional do Cooperativismo, Santa Catarina tem razões para celebrar, mas também responsabilidades a assumir. O vigor de suas cooperativas demonstra que o desenvolvimento não precisa ser impessoal, excludente ou concentrador. Pode ser humano, democrático, produtivo e comunitário. A experiência catarinense confirma uma convicção que se renova a cada ano: o cooperativismo faz bem em todas as atividades humanas, fortalece a economia, eleva comunidades e oferece ao mundo uma linguagem concreta de paz.

Retrato de Márcio Port Sicredi Sul/Sudeste
Artigo 02 / 06 · Essência

Porque somos uma cooperativa

Vivemos um tempo de pressa, de ruído e de distâncias. Um tempo em que muitas instituições se afastam das pessoas, fecham portas e concentram decisões longe de quem produz, trabalha e sonha. É justamente nesse cenário que uma pergunta simples ganha força: por que fazemos o que fazemos?

A resposta, para nós, cabe em uma única frase — e ela começa sempre do mesmo jeito: porque somos uma cooperativa.

Não se trata de um detalhe jurídico, nem de um discurso. É a nossa essência. Uma cooperativa é uma sociedade de pessoas, que existe para servir quem participa dela. O associado não é um cliente de quem se extrai resultado: ele é, ao mesmo tempo, dono e razão de tudo. E quando se entende isso, tudo o mais passa a fazer sentido.

Porque somos uma cooperativa, quem decide são as pessoas. Aqui, cada associado vale um voto, independentemente do tamanho do seu capital. São os próprios associados que elegem os coordenadores de núcleo e os conselheiros que dirigem a instituição. A decisão não desce de um andar distante: ela nasce perto de quem vive a realidade de cada comunidade. É a democracia praticada no dia a dia, e não apenas proclamada.

Porque somos uma cooperativa, não perseguimos o lucro — perseguimos a prosperidade. Sem a pressão de remunerar acionistas, conseguimos praticar condições mais justas, e o próprio Banco Central reconhece que as cooperativas oferecem taxas menores. Em 2025, o Sicredi devolveu R$ 3,4 bilhões diretamente aos associados (por meio da remuneração do capital social e da distribuição de resultados), e o conjunto desse esforço gerou um benefício econômico de R$ 31,1 bilhões — uma economia média de mais de três mil reais para cada pessoa associada. Não como favor, mas como consequência natural daquilo que somos.

Porque somos uma cooperativa, a riqueza gerada fica onde nasce. O recurso que se deposita vira crédito ali mesmo, na mesma comunidade, e o resultado não migra para uma matriz distante: volta para quem ajudou a construí-lo. É o que chamamos de círculo virtuoso do cooperativismo: o associado investe, esse recurso vira crédito local, o negócio cresce, gera renda e emprego, o resultado fica na região — e o ciclo recomeça, ampliado. Não é uma imagem bonita: é um efeito medido. Cada real de crédito cooperativo movimenta dois reais e meio na economia, e os municípios que recebem uma cooperativa registram crescimento do PIB por habitante acima da média. Onde a cooperação chega, a região inteira prospera.

Porque somos uma cooperativa, estamos onde muitos preferem não estar. E isso não é apenas vontade: é vocação comprovada. Um estudo da PUC-Rio mostrou que um banco tradicional, em média, só abre uma agência em cidades a partir de oito mil habitantes; uma cooperativa de crédito consegue chegar a municípios de pouco mais de dois mil. Nesse intervalo existem cerca de 1,9 mil cidades e nove milhões de pessoas que, estruturalmente, só o cooperativismo é capaz de atender. Não por acaso, em 469 municípios brasileiros a cooperativa de crédito é a única instituição financeira presente — e, em 236 deles, essa presença é o Sicredi, muitas vezes em lugares com menos de dois mil habitantes. Enquanto parte do sistema tradicional recua, nós avançamos, porque o nosso compromisso não é com o mapa mais rentável, mas com as pessoas que vivem em cada lugar.

Porque somos uma cooperativa, ficamos juntos nas horas mais difíceis. Foi assim na pandemia e foi assim nas enchentes do Rio Grande do Sul, quando mantivemos o crédito ativo e a mão estendida no momento de maior necessidade. Estar presente quando dói não é uma campanha: é a razão de existir.

E porque somos uma cooperativa, devolvemos à comunidade muito mais do que serviços financeiros. Por meio do Fundo Social e dos nossos programas, milhares de projetos e milhões de pessoas são alcançados a cada ano, em educação, cultura, saúde e inclusão — sempre escolhidos pela própria comunidade, sempre plantados no próprio território.

Há pouco, uma pesquisa do Sicredi com o Datafolha confirmou, com método, aquilo que vivemos todos os dias: para o brasileiro, prosperar é muito mais do que dinheiro. É bem-estar, é propósito, é pertencimento. E não por acaso, é justamente no interior — onde os laços são mais próximos — que mais pessoas se sentem plenamente prósperas. A prosperidade verdadeira é coletiva. Ela floresce onde há cooperação.

Neste Dia Internacional do Cooperativismo, celebrado no primeiro sábado de julho, o movimento cooperativo global escolheu um tema que parece feito para o nosso tempo: cooperativas por um mundo mais pacífico. Cooperativas como construtoras de pontes — que aproximam comunidades, reconstroem confiança e lembram que ninguém prospera sozinho. É exatamente o que fazemos quando reunimos pessoas em torno de um propósito comum: transformamos competição em colaboração, e individualismo em pertencimento. A paz, afinal, também se constrói assim — com inclusão, com participação e com oportunidades que chegam a todos.

Por isso seguimos. Plantando hoje as sementes cujos frutos e cuja sombra serão das próximas gerações. Construindo, junto com cada associado e cada comunidade, uma sociedade mais próspera, mais justa e mais humana.

Tudo isso não é estratégia. É consequência. E a explicação cabe, sempre, na mesma frase: porque somos uma cooperativa.

Retrato de João Spenthof Sicredi Centro Norte · OCB/MT
Artigo 03 / 06 · Comunidade

Crescer juntos para transformar comunidades

Em uma sociedade marcada por relações econômicas cada vez mais individualistas, concentração de renda e desigualdades, o cooperativismo se apresenta como um modelo de negócio que prova que é possível crescer de forma coletiva, sustentável e inclusiva. E neste 4 de julho, Dia Internacional do Cooperativismo — data instituída oficialmente pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1992 e comemorado desde 1995 — temos muito que celebrar e reconhecer a força de um movimento que coloca as pessoas no centro das decisões e transforma realidades em todos os cantos do mundo.

Ser cooperado é muito mais do que ter acesso a produtos ou serviços. É fazer parte de um sistema baseado na participação, na democracia e no compartilhamento de resultados. É a prática de um princípio simples, mas poderoso: juntos somos mais fortes.

Os impactos desse modelo de negócio na sociedade são amplos e profundos. Isso porque o cooperativismo é um movimento que acredita nas pessoas, promove inclusão real, desenvolvimento local e transformação social, tripé essencial para construir uma sociedade mais próspera e justa.

Além disso, as cooperativas têm uma característica singular: os recursos e os resultados permanecem nas próprias comunidades. Isso gera emprego, movimenta a economia local, estimula novos investimentos e contribui para o desenvolvimento regional. Onde há cooperativismo, há mais oportunidades, maior circulação de renda e uma rede de apoio que beneficia toda a sociedade.

Dividido em 8 ramos (agro, saúde, infraestrutura, transporte, educação, consumo, trabalho e crédito), a finalidade é a mesma: prosperidade. E os números do setor provam que o modelo está no caminho certo. Dados do Sistema OCB, referentes ao ano de 2024, apontam a existência de 4.384 cooperativas no Brasil. Elas reúnem mais de 25,8 milhões de cooperados e somam mais de R$ 1,39 trilhão de ativos, com mais de R$ 51,3 bilhões em sobras e o emprego de mais 578 mil pessoas.

Especificamente sobre o crédito, ramo do qual o Sicredi faz parte, temos orgulho de dizer que contribuímos para a construção de um mundo melhor. De Norte a Sul, de Leste a Oeste do Brasil, nossas agências estão de portas abertas. Atuamos como agentes de desenvolvimento local, disponibilizando soluções financeiras acessíveis, incentivando a educação financeira, apoiando pequenos negócios e reinvestindo os recursos nas regiões, beneficiando empreendedores, agricultores, famílias e empresas.

Num cenário em que a sociedade busca modelos econômicos mais humanos e sustentáveis, o cooperativismo se fortalece como uma alternativa capaz de conciliar desenvolvimento econômico e responsabilidade social. Seu maior diferencial está justamente naquilo que o torna único: pessoas trabalhando por pessoas.

Neste dia especial, não podemos deixar de celebrar a sanção da Lei 15.433, de 2026, pela Presidência da República. A nova lei reconhece o cooperativismo como manifestação da cultura nacional e determina que o Estado deve garantir a livre atividade, apoiar e estimular o cooperativismo.

Encerro este artigo com um convite à reflexão. Afinal, quando escolhemos cooperar, escolhemos construir comunidades mais fortes, economias mais justas e um futuro em que o sucesso não pertence a apenas alguns, mas é compartilhado por todos. Porque o cooperativismo nos ensina uma das mais importantes lições para o desenvolvimento de qualquer sociedade: ninguém cresce sozinho!

Retrato de Remaclo Fischer Junior Sistema Unicred
Artigo 04 / 06 · Intercooperação

A prosperidade compartilhada constrói sociedades mais fortes

Qual seria a principal contribuição do cooperativismo na busca por sociedades mais prósperas? As diversas questões que permeiam o cooperativismo e seus princípios revelam, para quem convive com ele, aspectos relevantes que nos trazem reflexões animadoras. Ao longo da trajetória profissional, fomos levados a admirar independência, autonomia e capacidade individual como atributos centrais. Crescer, achávamos, significava depender cada vez menos dos outros. A experiência, porém, ensina lições menos óbvias. A autonomia continua sendo essencial, mas os melhores resultados costumam surgir por meio da cooperação.

A convivência com o cooperativismo reforça isso a cada dia. Soluções eficientes nascem, muitas vezes, presas ao contexto que as originou. Mas quando cooperativas diferentes trocam experiências e adaptam caminhos, uma resposta pensada para um único espaço pode beneficiar milhares de pessoas.

Ideias promissoras ganham ainda mais força quando circulam e incorporam novas contribuições. Isso não diminui o mérito de quem as criou. Pelo contrário, esse mérito se multiplica quando outros ajudam a levá-las adiante. Embora a competição tenha seu papel no desenvolvimento econômico, ela nem sempre garante prosperidade duradoura. Nenhuma comunidade preserva equilíbrio quando oportunidades deixam de circular. Nenhuma economia sustenta crescimento no longo prazo quando os benefícios ficam concentrados nos mesmos espaços.

Um movimento que já é realidade

Esse cenário ajuda a explicar por que o cooperativismo segue crescendo em diferentes partes do mundo. Segundo a International Cooperative Alliance, mais de 1 bilhão de pessoas participam hoje de cooperativas, cerca de 12% da população global. No Brasil, são 25 milhões de cooperados e, de acordo com a Organização das Cooperativas Brasileiras, mais de 4,5 mil cooperativas respondem por cerca de 6% do PIB nacional. Não por acaso, o país acaba de dar um passo importante nessa direção. A Lei nº 15.433/2026 reconheceu oficialmente o cooperativismo como manifestação da cultura nacional, reforçando o que o dia a dia de milhões de brasileiros já mostrava: relações construídas com colaboração, confiança e compromisso coletivo geram impacto concreto.

Entre as vivências que mais me marcaram, poucas ensinaram tanto quanto observar cooperativas atuando em conjunto. Determinados avanços mudam de escala quando deixamos de olhar apenas para o que beneficia nossas organizações e passamos a enxergar o alcance de soluções construídas coletivamente. Isso acontece entre cooperativas singulares, entre equipes, entre sistemas. É esse movimento, o princípio da intercooperação, que explica boa parte do impacto do modelo.

O setor de saúde ilustra isso com clareza. Mesmo o médico mais preparado conta com uma equipe multiprofissional para alcançar os melhores resultados. Nenhum paciente atravessa um tratamento delicado sem uma rede inteira de profissionais atuando juntos, compartilhando conhecimento e dividindo responsabilidades. Certos resultados simplesmente não pertencem ao esforço isolado.

Uma lição para o Dia Internacional do Cooperativismo

Neste Dia Internacional do Cooperativismo, celebrado sob o tema “Cooperativas por um mundo pacífico”, fica evidente aquilo que anos de convivência com esse modelo ajudaram a construir: crescer sozinho nunca foi a forma mais inteligente de construir algo duradouro. Permitir que outras pessoas avancem conosco, respeitando os méritos individuais, amplia o que somos capazes de realizar. No fim, é assim, com prosperidade compartilhada, que sociedades mais fortes se constroem.

Retrato de David Maia D'Oliveira Faculdade Unimed
Artigo 05 / 06 · Cooperativismo médico

No cooperativismo, o cooperado não é apenas prestador. É sócio. E isso faz toda a diferença

Falar em cooperativismo é falar sobre pessoas, trabalho e construção em conjunto. Esse movimento contribui para transformações na sociedade desde 1844, com os primeiros registros na cidade de Rochdale, na Inglaterra. Tamanha é a sua importância que, segundo dados da International Cooperative Alliance, mais de 12% da humanidade faz parte de alguma das 3 milhões de cooperativas existentes no mundo. Essas cooperativas contribuem para o crescimento econômico sustentável, gerando oportunidades de emprego para 280 milhões de pessoas, ou seja, 10% da população mundial empregada. Neste momento em que o cooperativismo celebra sua contribuição para o desenvolvimento econômico e social de maneira global, vale refletir sobre um dos principais diferenciais desse modelo de negócio: a participação efetiva das pessoas na construção dos resultados.

Nas cooperativas médicas, esse princípio assume uma dimensão ainda mais singular. Diferentemente das empresas tradicionais, em que acionistas, clientes e fornecedores exercem papéis distintos, o cooperado reúne essas três funções em uma única pessoa. Ele é sócio da cooperativa, presta serviços assistenciais e também compartilha a responsabilidade pelos resultados e pela sustentabilidade da organização.

Essa característica torna o cooperativismo médico um modelo de gestão único. Mas também traz desafios que vão muito além da administração financeira ou operacional. O maior deles é construir uma relação permanente de confiança e pertencimento entre a cooperativa e seu quadro social.

Quando essa jornada de troca entre cooperativa e cooperado não recebe a devida atenção, a relação deixa de ser colaborativa para se tornar meramente transacional. O cooperado passa a enxergar a cooperativa apenas como mais uma operadora para a qual presta serviços, perdendo a compreensão de que também participa das decisões e da construção do futuro da organização. Esse distanciamento produz impactos concretos.

O primeiro deles aparece na assistência à saúde. Quanto maior o alinhamento entre o corpo clínico e as diretrizes assistenciais, maiores tendem a ser a qualidade do cuidado oferecido aos pacientes e a eficiência da operação.

Também surgem reflexos na governança. Cooperativas dependem da participação qualificada de seus associados para tomar decisões estratégicas. Um quadro social desinformado ou desengajado enfraquece os processos democráticos e dificulta a construção de consensos.

Outro efeito importante está na judicialização e nos conflitos internos. Critérios claros de admissão, regras transparentes, canais permanentes de diálogo e comunicação consistente reduzem divergências e fortalecem a confiança entre cooperados e gestão.

Talvez o impacto mais preocupante seja a perda gradual da identidade cooperativista. Quando o médico deixa de se perceber como sócio e passa a agir apenas como prestador de serviços, a essência do cooperativismo começa a se enfraquecer.

Por isso, cada vez mais especialistas defendem que a gestão do quadro social seja tratada como uma estratégia permanente de governança e não apenas como uma atividade administrativa.

Essa jornada começa na admissão do cooperado. A livre adesão, um dos princípios universais do cooperativismo, não significa ausência de critérios. Pelo contrário. Processos estruturados, transparentes e fundamentados em requisitos técnicos, éticos e documentais oferecem segurança jurídica, qualificam o corpo clínico e deixam claro, desde o primeiro dia, que ingressar em uma cooperativa significa assumir responsabilidades como sócio de um projeto coletivo.

O segundo passo é o desenvolvimento contínuo. Educação cooperativista, programas de formação, comunicação transparente e oportunidades permanentes de participação ajudam o médico a compreender o modelo de negócios, fortalecendo seu senso de pertencimento.

Por fim, a escuta estruturada fecha esse ciclo. Pesquisas de satisfação, consultas ao quadro social e canais permanentes de diálogo deixam de ser simples instrumentos de avaliação para se transformarem em ferramentas estratégicas de gestão. Elas permitem identificar oportunidades de melhoria, antecipar conflitos e orientar decisões baseadas nas reais expectativas dos cooperados.

Vale destacar que investir nessa relação não representa apenas uma iniciativa voltada ao clima organizacional. Trata-se de uma decisão estratégica.

Cooperados que compreendem o funcionamento da cooperativa, confiam em seus processos e percebem que suas opiniões são consideradas tendem a colaborar mais com os objetivos institucionais, aderir com maior facilidade às diretrizes assistenciais e participar de forma mais ativa das decisões coletivas. Em outras palavras, o relacionamento com o cooperado deixa de ser um custo operacional para se tornar um ativo estratégico.

Em um cenário de profundas transformações na saúde suplementar, marcado por desafios regulatórios, pressão por eficiência e necessidade crescente de inovação, fortalecer o vínculo entre cooperativa e cooperados é investir na própria sustentabilidade do negócio.

No fim das contas, o cooperativismo continua demonstrando que seu maior diferencial não está apenas em seu modelo societário ou em seus resultados econômicos. Está na capacidade de construir organizações em que as pessoas compartilham responsabilidades, decisões e propósito.

No caso das cooperativas médicas, isso significa reconhecer que o médico não é apenas um prestador de serviços. Ele é coproprietário da instituição, participa de sua governança e ajuda a definir seus rumos.

E talvez seja justamente essa a principal lição do cooperativismo neste 4 de julho: organizações se tornam mais fortes quando as pessoas deixam de ser apenas participantes e passam a ser verdadeiramente protagonistas de sua construção.

Retrato de Luis Cláudio Silva MundoCoop · 25 anos
Artigo 06 / 06 · Comunicação e reconhecimento

O Dia Internacional do Cooperativismo merece mais do que homenagens. Merece reconhecimento

Neste primeiro sábado de julho, milhares de cooperativas em todo o Brasil saíram de seus escritórios, agências, propriedades rurais, hospitais, escolas e indústrias para fazer aquilo que sabem fazer melhor: cuidar de pessoas.

Foram mutirões de saúde, plantios de árvores, campanhas de doação de sangue, arrecadação de alimentos, atividades educativas, ações ambientais, projetos culturais e dezenas de iniciativas que transformaram comunidades inteiras. Em cada estado brasileiro, cooperativas mostraram que desenvolvimento econômico e compromisso social podem caminhar juntos.

Essa talvez seja a maior diferença do cooperativismo. Enquanto muitos enxergam responsabilidade social como uma estratégia, as cooperativas a praticam como essência.

O Dia Internacional do Cooperativismo, celebrado desde 1923 pela Aliança Cooperativa Internacional e reconhecido oficialmente pelas Nações Unidas desde 1995, nasceu justamente para ampliar a conscientização da sociedade sobre a importância desse modelo econômico e social, que hoje reúne mais de um bilhão de cooperados em todo o planeta. A data é muito mais do que uma celebração: é um convite para que o mundo conheça um modelo empresarial que coloca as pessoas no centro das decisões e do desenvolvimento.

Mas aqui cabe uma reflexão. Se tantas cooperativas mobilizam milhares de voluntários, investem milhões em ações sociais e impactam positivamente tantas comunidades, por que ainda são tão pouco conhecidas pela sociedade? Por que esses exemplos quase nunca ocupam espaço na grande mídia? Por que ainda precisamos explicar, repetidas vezes, o que é uma cooperativa?

Essa talvez seja uma das maiores missões do movimento para os próximos anos.

O cooperativismo já provou sua força econômica. Já demonstrou sua capacidade de gerar emprego, distribuir renda, fortalecer o agro, democratizar o crédito, cuidar da saúde, produzir energia, educar, transportar, consumir e transformar realidades. O desafio agora é outro. É tornar essa força visível. Porque aquilo que a sociedade não conhece, dificilmente valoriza.

Ainda existe um longo caminho entre o tamanho do cooperativismo e o reconhecimento que ele recebe. É justamente nesse espaço que a comunicação se torna estratégica.

Na MundoCoop, acreditamos que comunicar não é apenas divulgar notícias. É construir percepção. É contar histórias que inspiram. É mostrar que existe uma economia baseada na cooperação, na confiança e no propósito. Ao longo dos últimos 25 anos, essa tem sido a nossa missão: dar voz às cooperativas, registrar seus impactos, valorizar seus protagonistas e ajudar o cooperativismo a ocupar o espaço que merece no debate público.

Não fazemos isso apenas porque acreditamos no cooperativismo. Fazemos porque acreditamos que milhões de brasileiros ainda precisam conhecê-lo.

Neste Dia Internacional do Cooperativismo, celebramos cada cooperativa que fez a diferença na vida de alguém. Cada cooperado que dedicou seu tempo ao próximo. Cada colaborador, dirigente e voluntário que mostrou, mais uma vez, que cooperar continua sendo uma das formas mais inteligentes e humanas de construir o futuro.

Parabéns às cooperativas. Parabéns aos cooperados. Parabéns a todos que acreditam que é possível crescer sem deixar ninguém para trás.

E que o próximo Dia Internacional do Cooperativismo seja celebrado não apenas por quem já faz parte desse movimento, mas também por uma sociedade que finalmente reconheça a dimensão, a relevância e o impacto de um modelo que transforma vidas todos os dias.

O fio que une as seis vozes

A paz também se constrói pela economia. E ninguém prospera sozinho.